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sonia regina - o exílio do olhar

o exílio do olhar os olhos se fecham: não querem ser vistos. é esse o exílio do olhar que se deita com a ausência do toque não há morte a pele espelha sombras; o enredo sem poesia tem narrativa oblíqua; a transparência chora o atrito das pedras escuras que não fazem fogo. sonia regina 31.1.09
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sonia regina - meu texto tem somente hiatos: evita lacunas

meu texto tem somente hiatos: evita lacunas até gosto dos espaços, meus dedos se aprazem com a certeza do porvir. nenhuma espera vazia, portanto, meu texto tem somente hiatos: evita lacunas rechaçadas pela lírica. por vezes nasce um mato no verde chão do meu quintal e eu não lhe peço licença para extirpá-lo: é o câncer da grama. assim cuido do solo, minha casa sorri e nos abriga, a mim e à minha escrita. vivemos felizes, as três, e sem muito pensamento contemplamos a lagoa. sonia regina 29.01.09 imagem: drika landim |
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sonia regina - pouco claras como as noites
pouco claras como as noites à vírgula seguem os espaços e palavras graves agarradas à linha. cantam, obscurecidas, com medo do ponto despem-se de significado exato, dançam pouco claras como as noites [o lado agreste dos dias na mão fechada das trevas] , não como a nudez dos teus dedos. sonia regina 29.1.09 imagem: arnell williams |
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sonia regina - num poema

num poema talvez seja de adão o sopro que vitaliza as pálpebras, acordando as letras contudo somente teu toque amoroso o faria renascer, da carne, num poema és tu o poeta das manhãs, com palavras desenhas sóis cumprem eles as entrelinhas em elipses suaves; como os vôos e pousos da borboleta riscam, coloridos, o ar da página em branco. sonia regina 28.1.09 |
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sonia regina - o pousio dos versos recolhidos

o pousio dos versos recolhidos venta nos lábios a voz de um verso atento ao bailado das folhas, mas o dia é de lavra urbana para a poesia em frente à igreja já não há pombos, pão ou migalhas; a oração sussurra, ainda viva entre os cordéis de lembranças infantis o passeio de uma borboleta não faz tremer o pousio dos versos recolhidos no olhar. sonia regina 27.01.09 imagem: carlos a.a.pereira |
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sonia regina - a poesia cobiça
a poesia cobiça a tina procura a memória antepassada, o rio não tem lembranças e o tanque já nada recorda máquinas de lavar não padecem de reminiscências, nem metaforicamente : enguiçam. é quando os poetas dão outro ofício aos dedos, penduram roupas nos varais e não palavras, nas páginas nostálgica, por uma nesga da janela a poesia cobiça o céu. sonia regina 25.01.09 |
imagem: pierre edouard frere
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sonia regina - versos pululam das águas
versos pululam das águas sambam os corpos em brasa, atiçando a poesia num ritmo de verão acelerado versos pululam das águas os poemas que se penduram na escrita descrevem arcos de palavras, como bambus ao vento. sonia regina 25.1.09
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imagem: "Bamboo Start-up" in: drue@drue.net
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sonia regina - páginas obscuras

páginas obscuras
há uma chama na palavra maior, que derrete beijos. pingos tornados veios perfumam a pele, solo de verões amaciados no vinho fibras suportam versos de carnaval numa escrita acesa e insone desfilam páginas obscuras.
sonia regina 23.1.09
imagem: arquivo de familia de antonio carlos de oliva maya
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sonia regina - tão inteiramente

tão inteiramente
gosto de ver-te. quando lês, há na tua boca uma linha que se entreabre e me faz ouvir os personagens.
tudo no teu corpo acompanha a leitura e quase adivinho o tom dessa escrita que te toma, tão inteiramente imagino cenários e diálogos vou construindo uma história paralela, que nem sempre te conto. protagonizo os pensamentos que me levam, autora, para as bordas da mente. um ou outro afeto aparece, querendo ser parte do enredo que não existe. nesse fluir constante, idéias principiam do núcleo de outras que não se completam não há caminho, há cenas.
sonia regina 23.01.09
imagem: iosif badalov
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sonia regina - pulso

pulso
a poesia firme atenta ao pulso, no cordão das asas perspicazes.
desenrolado, o ponto de vida [corpo de canções escritas numa linha luminosa, com sensualidade e ternura] sorri. nas palavras, os fios embaralhados. sonia regina 22/01
imagem: vincent favre
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sonia regina - tanto

tanto de repente entras na minha paisagem. água jorrando, margaridas em flor, um pimentão novinho.
espantosas as tardes na colina, em dias de verão vermelho. ainda que se vá o sol, tu ficas. tanto permanece. sonia regina 21/01
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sonia regina - em brando sussurro

pulsa, o sol a pele racha, casca intumescida. capilares enfartados. na seiva de prazer pulsa o sol, brando sussurro rumoreja na retina a vertigem do olhar, o cicio do coração no silêncio da mente. a pele é testemunha. sonia regina
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sonia regina - no momento do leite

no momento do leite
as horas de fogo cessam no momento do leite, mas a fúria põe termo à memória.
confundidos, o pensamento e a fé acuada pelo clarão que interrompeu as estrelas: os rogos ardentes não impediram o rubro sem fim.
sonia regina 8.1.09
imagem: palestinos recebem ajuda humanitária durante trégua em gaza. foto: ap http://www.estadao.com.br/internacional/not_int304339,0.htm
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sonia regina - apenas venta, tangente

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sonia regina - a história se dissolve

a história se dissolve
a ferocidade do desprezo desespera os pelos, a brutalidade exaspera
a dor; insolentes, fiéis ao rancor [não à misericórdia] : a crueldade e a covardia de raiz histórica. se a etnia não se limpa qual poeira de console, a história das famílias se dissolve.
sonia regina 7.01.09
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sonia regina - o teu gesto fala

o teu gesto fala
o teu gesto fala. meu corpo move-se no movimento do mel. a flor desabrocha. da abelha, a cera na pele dos lábios.
sonia regina 05.01.09
imagem: Luz Maria Vales
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sonia regina - ainda que amordaçada

ainda que amordaçada
bebo neste silêncio como num taça, se procuro a palavra que ferve,viva.
a que, como a poesia, sobrevive ao tempo aos projetos aos sonhos que em mim não morrem, porque cúmplices do fogo da vida; porque minha voz irrompe, ainda que esteja, a minha boca, amordaçada.
sonia regina 5.1.09
imagem: www.jornalmudardevida.net/
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