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sonia regina - a expressão fundamental dos opostos

a expressão fundamental dos opostos
dissiparam-se as névoas batizadas, não escolhido nenhum dentre os muitos caminhos que levavam do apego à morte pacífica e indolor o carmim ferve novamente nas veias, nos subterrâneos da essência principia o retorno à centelha sem falhas o loureiro germina ereto e, sereno, ampara a virtude golpeada pela ignorância brotam ramagens, pardais encontram um nome o todo não cabe na parte, o caos cede aos construtores : inicia-se a expressão fundamental dos opostos.
sonia regina 28.11.08 imagem: Haleh Bryan
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sonia regina - espelhando a limpidez

espelhando a limpidez
no grande vazio de sons as bocas se alimentaram de ar denso e pesado, formando poderoso hálito a duplicidade de sabores apagou erros de fantasia tolamente adocicada, quatro estações reiniciaram o ciclo quietudes temperavam atividades com algum mistério quando a brisa soprava ludicamente sem causa ou fim fogos ardiam nutrindo almas e corpos, em silencio os mergulhos na ternura espelhavam a limpidez
sonia regina 26.11.08
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Osvaldo Pastorelli

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Walter Mondragón

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Semeadouro de Verbos - Dúnia de Freitas

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sonia regina - nada mais se lê, aquém dos céus
nada mais se lê, aquém dos céus

relampeja nos espaços abertos
longe, nas bordas dos versos inspirados, as nervuras do areal clamam por nova geometria chove. numa penetração oblíqua do soro da vida, um último alento suspira a seca, exangue nas mãos molhadas a escritura indecifrável respira, devagar, palavras sem ambivalência nada mais se lê, aquém dos céus. sonia regina 10.12.08
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sonia regina - na sombra dos gestos repisados
na sombra dos gestos repisados

o desgosto é o que recorda e inaugura. é um conhecimento dos fatos, acontece na sombra dos gestos repisados. movimenta-se na colheita de outras estações como letras vivas a meio caminho da erupção. sonia regina 9.12.08
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sonia regina - no gosto do mosto, a verdade do vinho
no gosto do mosto, a verdade do vinho

a passagem da água ou do fogo vibra quando em modo puríssimo a terra ensaia destampar pequenos tesouros não imune à impermanência dos ciclos, a compacta versão dos fatos apaga detalhes ao condensar ou abrir caminhos na saudade restam as impressões do ritmo e da constância das estações muito é tragado antecipadamente por um coração alado se, no gosto do mosto, o aroma saboreia a verdade do vinho. sonia regina 9.12.08
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sonia regina - o desgosto arde na primavera

o desgosto arde na primavera
dobremos o cabo das tormentas com palavras suavemente adoçadas num tempo de chuva. há sempre uma lareira imaginária a nos aquecer a alma fecundada; sobre o tapete um ovo desenhado já ganha vida e nos aguarda os corpos e as sombras. se o desgosto arde na primavera, fatos não rascunhados firmam-se no verão. sonia regina 08.12.08
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sonia regina e jorge vicente - castigo
castigo sonia regina e jorge vicente
1.
nada se escuta, senão o silenciar da dúvida
e sua consolidação, que castiga
não tanto o fado, cantiga dos ventos que já não pulsam,
quanto a decadência dos tempos.
sonia regina
2.
nada se escuta senão a cicuta que amortalha a pele e os ossos,
nada se vibra senão a foz e o verso
que rouba dos pés o lírio vermelho do dia.
jorge vicente
3.
nada vibra aquém, na noite ouve-se o chamamento do brilho
na chama em que me perco arde, no verso, o gosto de mais um beijo
sonia regina
4.
há um paladar e um gosto a alecrim nas palavras que escreves: ou serão as palavras vestidas de todas as plantas, como se a selva marulhasse e enchesse a poesia dos sons, dos toques, do mistério do saci e do boto.
temo que iemanjá não me perdoe e cante uma canção em minha morte.
jorge vicente
5.
busca força nos sabores e cheiros da natureza, procura o sublime e o experimenta nas palavras, as imagens em movimento
é assim, meu senhor, é assim: levanta-te e anda
busca o que dê sentido à existência do poema, crucificada pelo hermetismo
sonia regina
6.
ainda ontem vi hermes segurando no caudal de uma estrela. ou terá sido apenas a figura de um livro, aqueles que lemos e ouvimos quando crianças somos, incólumes e sem mácula
talvez sejam os livros sejam herméticos ou talvez hermes esteja mesmo lá, se tenha transformado por meios químicos em pasta de papel e se transformado. assim vira os olhos, página a página, segundo a segundo e não se lembra se alguma vez houve um terceiro género na poesia.
jorge vicente
7.
façanhas infantis que desafiam a sensatez refletem o poder da vontade: as crianças se vinculam aos deuses e se elevam à categoria de divindade
digamos que dimensões antagônicas se resolvem em unidade no aspecto da pureza humana, o conhecimento não covarde das letras personifica a faculdade de realizar o olhar que se abre em luz
escutar o sol nas palavras e cantar na escuridão das páginas cura estigmas e revolve o obscuro
sonia regina
8.
o obscuro soletra a noite. cinco palavras. uma. duas. as três personificações da lua, como num conto de mizoguchi. quatro. o apocalipse está perto e não é nada daquilo que imaginamos. os quatro cavaleiros combinaram entre si trazer quatro presentes de prata.
o quinto somos nós e o presente~ o dom da lua.
jorge vicente
9.
o obscuro canta no porão, no sótão brilha a lua acima dos olhos que só vêem uma face e não libertam o dragão selvagem prometido.
retirar o fogo das nossas sombras é a alquimia que nos faz nascer da prata após as núpcias do céu e do inferno.
sonia regina
10.
respondo às núpcias: existe uma génese um começo uma inclinação dos eixos aquilo a que os padres chamava, o pecado.
a inclinação da terra na direcção da terra-madre: a sacrossanta face de um papel de cosmos.
jorge vicente
11.
o habitante dos céus, o intangível, palpita na realidade mundana e se inclina para as profundezas, para os subterrâneos: fonte de memória do que foi, é e será; mundo da essência anterior ao pecado; reino que dá substancia à forma e ao firmamento, além do profundo dos mares, em todos os lugares.
sonia regina
12.
o habitante dos céus vive em todos os lugares, em todas as folhas, em todos os pedaços de chão ternamente repartidos. é dele o céu que vemos, o mar que abrimos, o pão que queimamos, quando acordamos para o céu de agosto.
eu sei que não é agosto e que o habitante dos céus não tem verão, mas sabe tão bem: a torrada ao acordar e o sono dos homens que se deixam ficar
jorge vicente
13.
quando todas as sombras são translúcidas, é diáfana a presença no azul.
ternamente o habitante dos céus sonha um verão para os homens que não respiram nada que não se perca pelo caminho
nesses dias de madorna em que tudo foi cansaço, nenhuma angústia sem razão anunciou janeiro. tampouco o razoável explica um estado posterior àquela melancolia que chorou a última lágrima violentamente, sem beleza.
em meio ao emaranhado de pães torrados, a sizígia.
sonia regina
14.
o azul cresce no mar e nas mornas ondas da terra. tenho os olhos da cor das algas, das senzalas e dos quilombos em que passeio. o mar é tudo isso: a libertação do homem novo, do homem velho, do homem antigo.
é a sombra translúcida dos antepassados que vieram antes dos peixes.
jorge vicente
15.
andamos em campos minados, lagos, rios, planícies, planaltos, sobre pedra e barro molhado
nos pinhais, praias, cabos, nos pântanos assombrados temos corrido, rido, nadado
infinito é o gosto de verão que criamos. pomos no sabor de cada onda furada uma alquimia. fortuita, no silêncio d'água
a pergunta na pele esconde dos olhos os instantes oferecidos, o despertar das eras azuis avoluma o oceano
e maya agoniza, no estio.
sonia regina
16.
maya agoniza no mês das chuvas, a terra índia salpicada de lençóis d'água cálida
em santa catarina, os homens fogem e as mulheres gritam pelo seu anjo protector. tenho uma infância que não é minha e uma dor de água que me encobre o corpo inteiro. salpico-me pelas lojas e pelos cafés da avenida enquanto os carros passam desabrigados.
sei que, em portugal faz sol, mas não há tanta poesia. os homens escrevem e salpicam-se de versos. de dor, eu sei, mas deus tudo vê e nada resolve.
jorge vicente
17.
sucumbe maya, soterrada no imenso vazio sem causa e sem fim. erguem-se os cristais d'água ao chamado do coração da rosa
evaporam, cumpridos os sete decretos
num espaço sem tempo selam-se as lágrimas mordidas no fogo que purifica a terra índia
sem anjo protetor, santa catarina ilumina seu dia salpicando-o de versos, clareando as entranhas da noite, convocando o sol
das profundezas das águas ouve-se o gemido da saudade, na gênese da separação
sonia regina
18.
não há separação possível, minha boa amiga, o verso é tua mudez, assim como as tuas palavras
a tua fronte e o teu olhar interno; o teu olhar e o sorriso por detrás dos dedos
nunca há separação porque santa catarina escreve versos. e lê-os para mim. sabes, o coração dos místicos está sempre acordado. e é sempre imune ao rebentamento da chuva.
jorge vicente
19.
li versos, vi a morte, dei condolências ao belo
emudeci, mas não retornaram ao inevitável as minhas palavras nem neguei o fruto possível dos dedos que sorriram da câmara mortuária
nada enterrei do dizimado, nada busquei. um sorriso de inverno acordou, da crueldade da paixão das águas
no ventre do vento norte guardei raios e trovões, o sudoeste lambeu o tudo ofertado à invocação dos sentidos, peixes saltaram do baú de tesouros
aberto, ao léu. desfrutado, a dois.
sonia regina
20.
a dois, o tesouro é partilhado. numa nuvem de peixes, dividimos o mundo e cantaremos numa língua desconhecida.
será talvez a língua da água, a areia debaixo da areia, a pedra abaixo da pedra como se não houvesse lava e apenas terra e vento e homens grandes no centro do universo.
dizem que abaixo dos pés faz calor eu digo: abaixo da pele, temos todos os astros que possamos invocar.
jorge vicente
21.
tesouros compartilhados não me ocultam na trama da minha fábula, narrativas não são atos de caridade.
a linguagem flui nas representações. cobiça que se fixem, na terra e na água, o fervor e o júbilo, a ternura, um tempo e distância não lineares
e, a língua, arde. queima em meus versos ao colher o enigma, o segredo do sensível liberto na pele. é o fascínio do poema aguardando a tradução num idioma possível.
sonia regina
22.
e o idioma possível é a alma de dois poetas se juntando e escrevendo juntos.
a plena lua, o mar das gentes e das palavras que nunca se desgastam e nascem sempre.
a fénix das asas longas.
jorge vicente
by SR
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sonia regina - alinhavos
alinhavos

embora não se entendam os hiatos, as temporadas evitam justificativas o ciclo retira o atraso para que seja, o lapso, como uma rolha espatifada que não altera o sabor do vinho o ilegítimo perturba a pueril franqueza do mar enquanto momentos de areia exaurem-se ao sol e, eu, alinhavo vazios que confinavam e trago na bolsa o teu sorriso, envolto nos raios do verão que me trouxeste não mais me exilo nas noites tropicais sim, também somos água. e vertemos da imagem que ousa beber no vento a força do temporal somos o que colhemos na tempestade; no amarelo brilhamos sem mais alarde, um ninho ao sol. sonia regina 24.11.08
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sonia regina e jorge Vicente - onde pulsa o sol
onde pulsa o sol sonia regina e jorge Vicente
"Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha." Ramos Rosa
1.
carinhosamente respondo-te de uma calmaria, mas não sei do que resvale ou fuja
digo-te do afago em tuas sílabas do repouso, ternura a me acolher a letra e a me receber, folha ou pássaro
escreves em minha pele, já vento, sopram os teu dedos no meu corpo, em meus lábios desenhas o sentido
da felicidade
no movimento do fogo a paciência do teu amor, em ondulação suave, toca o fundo aberto da palavra
que cintila, branca, onde pulsa o sol.
sonia regina
2.
onde pulsa o sol é onde pulsa o anjo e o demónio - a luz solar, a luz branca, o gelo dos sentidos e do afago.
jorge vicente
3.
onde nada se escuta senão o silenciar da dúvida e sua consolidação,
que castiga
não tanto o fado, cantiga dos ventos que já não pulsam
quanto a decadência dos tempos
sonia regina
4.
os tempos decantam-se e ouvem o que está por detrás
eu fico: apenas a dúvida de como calar e fugir e ouvir a sete pés o amor que encosto nos dedos que escrevo.
jorge vicente
5.
atrás de uma xícara vazia haverá um corpo gelado se ficas sobre a madeira sem lume
no calor da tua alegria eu resisto quando, na rua, a luz se apaga e no jornal já não se lê senão do crepúsculo dos mistérios
sonia regina
6.
amanhecem os mistérios e a pítia já se encanta com os seus súbditos, o seu olho terceiro que toca e é tocado:
sei que foi nesse momento que nasceu o verso primeiro, o restolhar dos mistérios e de todos os signos das palavras.
jorge vicente
7.
o humano é exilado de si, não há alvorada do enigma
é à noite que eros impede o esquecimento, movimenta os sentidos para o coração
nutre a alma do que é da sua natureza
sonia regina
8.
será que o velho amante, deus da morte e do silêncio, thanatos ainda me persegue?
pergunto-te, eros, onde vai a estrada da aldeia. vejo pequenas campas ao longo da estrada e nenhuma bomba que surja do emaranhado das árvores. pergunto-te, eros, em que terra surges, com que tecido te alimentas, se das heras que alimentam a casa se dos repasto dos bichos e das térmitas que ainda ouço à noite, quando escrevo um poema aos mortos.
pergunto-te, eros, com que dinheiro a casa foi reconstruída. ainda ontem estive em dubrovnik e só vejo turistas a encherem os bolsos. também eu vivo no adriático e peço que os deuses sejam inclementes.
jorge vicente
9.
enquanto te exilares de ti é impossível verificar se quem te persegue não és tu ou o que, de ti, depositas no dinheiro com que te compram os fragmentos: és menos clemente que todos os deuses
atenta à tua parte deliberada, mergulha em teus subterrâneos,
a estrada da aldeia te levará aos rastros de ti projetados nas árvores do caminho. eu somente desvelo um pouco da história desse teu `eu' escrito na superfície estética do poema.
alimento-me do teu timbre, é nele que colocas o teu olhar interativo, líquido e movente.
quando em vida escreves aos mortos, thanatos supera-me e vai ao teu encalço através dos rastros de cunho estético.
sonia regina
10.
thanatos sempre me supera. e ainda bem. porque o dom da vida é sempre igual ao dom da morte. o dom de abandonar. de estar silente. de pernoitar no que as ervas sobram. e no que os caminhos desconhecem.
nunca me exilarei de mim. a aldeia estará sempre comigo, mesmo que a árvore seja o mais pequeno baloiço de brincar que vejo entre os prédios.
jorge vicente
11.
emocionados caminhamos para o amor ou o horror, ladeados pelo desejo - o de buscar e o de ir em direção contrária; eros preenche com vida nova os hiatos que thanatos causa inces¬santemente. a mente - capturada pela emoção estética - resta acima do desejo e do ódio.
não expulsa o subjetivo, que não te perderás de ti e não haverá solidão. seja a aldeia vista ou imaginada, as árvores balançarão ao vento que nada mais separa porque a essência terá retomado o corpo.
sonia regina
12.
a essência retoma sempre o corpo porque eros assim o quer. ou será hades, o deus das profundezas dos vácuos de pedra, dos lugares sertanejos onde o interior é apenas ausência de mar.
ouço um bandolim bem debaixo das ruínas da cidade. não há subterrênos mais fundos do que aquilo que ouvimos e amamos sempre mais.
será eros. será hades. será rei édipo retornando do exílio em colono? nunca há um exílio tão belo onde aquele em que finalmente se vê.
jorge vicente
13.
os olhos se fecham: não querem ser vistos. é esse o exílio do olhar que, no leito, se deita com a ausência do toque - não há morte ou incesto quando a pele espelha as sombras
para não queimar a retina das habitações poéticas, o enredo é sem poesia e de uma narrativa oblíqua: é golpeado o argumento na memória viva de cenas domésticas e voa em papel para debaixo da cama
o ilícito e o iníquo transmutam-se no guerreiro tenaz e heróico, lideram a transparência, choram o atrito das pedras escuras que não fazem fogo
sonia regina
14.
vivo por entre as pedras. construo casas e habitações. moradas. mansões. templos do saber espiritual. está tudo dentro de mim. as casas e as mansões. nada está fora. nada está debaixo. podes ver. podes sentir. podes tocar com a pele e com o sexo. há quem diga que a religião só se evoca se saltarmos três vezes por cima de uma árvore dourada. sabes, aquelas árvores onde o sol bate cada vez que nos deitamos. dizem que foi cupido que a acordou. e que cismou de deitar o sol acima dela.
jorge vicente
15.
tu me emprestaste o olhar e eu as vi, pedras e mansões. mas toquei num cenário espinhoso, em preto e branco. não havia festa na cor nem o sol era bem vindo, sucumbia em agonia o dourado da árvore
ainda tentei saltá-la, mas já não havia religião para a sede, embora eu a acudisse - ainda que sem água - ao anunciar o cinza da nuvem, quando acordava
entretanto, saltitei. meu passo estreitou-se, marcou o tempo e eu o finquei na terra, esperançada. cupido voou sobre ela, alagou meu sorriso e coloriu minha casa e árvore com o sol.
ah, amigo, hoje meus olhos gotejam contigo a anunciação.
sonia regina
16.
gabriel está comigo. sempre está comigo, desde o dia em que meditei pela última vez. disse-me que era o anjo da anunciação, mas que a mim não me anunciava coisa nenhuma pois tudo já fora inventado pela boca do poeta.
disse-me que conhecera tirésias quando ainda tinha asas pequeninas e mamava na pomba do céu superior. sabes, disse ele, no céu os animais são como os homens: têm alma e filosofia e sabem escrever e ler como ninguém. foi a pomba, disse-me ele, que criou as primeiras letras, os primeiros símbolos matemáticos. ele ainda era pequenino, mas as asas já eram enormes e levantavam os mares e os ventos e criaram os primeiros continentes.
sabes, disse ele, tenho saudades desses primeiros tempos.
jorge vicente
17.
também eu tenho saudades de sentir o pulsar do sol. vi muitos ombros amparando-se em corpos sem braços que meditavam. sem qualquer movimento o pensamento aquietava-se entre as imagens; livros e páginas escritos a lápis foram apagados por atos ensandecidos
entontecia o gelar do sangue no corpo à espera do prenúncio do rito, um gosto acre e doce prendia as vozes
gabriel, arcanjo da cura, imprimia ritmo aos vôos sem asas
a liberdade roçou aquelas faces com a essência animal; na transfiguração da mata penetrou-se o vazio, sem medo ou pudor
nenhum dizer senão o de tirésias desagradou zeus, depois do conhecimento do feminino e do masculino.
sonia regina
18.
todos os conhecimentos desagradam o deus pelo menos aquele dos olhos largos, que vêm tudo, que sentem tudo, que ouvem o que não podem ouvir
pois nem tudo pode ser visto nem pode tudo ser sentido nem tudo tem o cheiro que o arcanjo ou o deus quer,
a começar nas folhas quando chove, o cheiro da terra molhada, da terra que não é terra senão chuva misturada no acre da semente. o deus, aquele que vê tudo, apenas vê uma imensa bola gigante com animais e gente dentro.
gabriel, o anjo das asas brancas, chora e diz-lhe que o mundo é sem porquê.
jorge vicente
19.
deuses gerem os mistérios do princípio, não o caminho para a individuação; a criação das nuvens e da chuva estanca antes do usufruto, o que comove o brilho angelical
em horas ressecadas o sacro não mergulha no solo para ser fertilizado; não vê a relva que recobre o barro num abraço vermelho
a terra exubera intensa fertilidade em linguagem varrida de palavras, há graça nos sem porquê: talvez o ar por demais corrompido traga um eros que deflore círculos viciosos
sonia regina
20.
pergunto-te, eros, se achas o mundo corrupto. se achas o amor apenas uma palavra sem sentido ou a exaltação de toda a tua existência. talvez, meu amigo, descubras que o mundo é sempre sem porquê, sem respostas e que o amor é sempre o mesmo amor na corola do flor
e na mulher que descobre o sexo pela primeira vez. talvez perguntes, eros, se o poema diz isso tudo: não diz. os homens dizem. e é o homem que escreve sempre o chão.
jorge vicente
21.
`não existo na simetria, disse-me eros, `no amor não há forma ou vontade corruptível', `dele vêm a natureza e o heróico.'
falou-me do deslumbre das paixões exaltadas com o lume, quando a luz não surpreende; do poema que escuta os vãos aproximando a intimidade do estranhamento; da negligência flutuante que torna a orientação um descaminho.
fascina, essa leitura que provoca cometimentos: o chão deixa de ser referência, o céu propõe estabilidade, através dos mitos e sonhos o íntimo encanta-se, fazendo a escritura dos contrários.
sem ter a quem vencer, a vida se iguala à morte que provoca renascimento.
sonia regina
22.
e tu renasces?
renasces nos silêncios do verso, nas entrelinhas que o corpo tece entre as unhas? eu sou a pele, a pele frágil, mas intensa, murmurando águas e cabelos e toques entre os dedos a memória frágil da mais bela manhã do mundo.
jorge vicente
23.
só é provocado quem acaba.
eu nunca terminei, talvez nunca tenha começado. nem no silêncio do meu verso houve entrelinhas. sem corpo enfrentei o todo relativo e o absoluto avesso do nada.
numa época inábil em cinzas não ocupei senão umidades ligeiras. fênix era um mito, assim como a chuva redentora que não vinha das águas que murmuravam na pele dos que tinham memória
atrás da minha letra narciso dançava com o espelho em busca de si : eu era a cantiga pressentida que não acalmava, atiçava ou acolhia.
sonia regina
by SR
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sonia regina e jorge vicente - sem razão
sem razão sonia regina e jorge vicente
1.
as noites de primavera parecem amornadas pelo fogo das águas douradas sem razão
ventos se divertem, o sopro não salga o olhar
enxergar é ver além daquilo que se mostra; a percepção intui, não requer explicação.
sonia regina
2.
nada requer explicação o poema não existe e o que resta de nós apenas do nosso corpo é:
a alma fica no lugar calmo da cama, onde a noite não se escuta e onde a cicuta mais não é do que um pássaro sem asas.
jorge vicente
3.
nada requer explicação
brilha o carmim nas veias e apenas dorme na alma a angústia
do negro da asa quebrada vem a noite, a criança chora a perda da ilusão do poema
sonia regina
4.
nunca a criança chora e nunca o poema tem lágrimas: apenas palavras, signos d'água e de tecido branco.
a não ser assim, como poderia a nau ter navegado e ter surgido no astro da noite, na alvorada que se quer frágil mas que conta a história dos homens e dos peixes.
jorge vicente
5.
o poema diz, pergunta, duvida: incessantemente
para ir mais além
desse momento, da utopia, da realidade concreta, da própria ação cotidiana
impregnado da invenção de cada um, a par do mágico e do sagrado
sonia regina
6.
é o mágico e é o sagrado que faz o verso. o lamento de orpheu e dos poetas que aí deixaram memória: o fernando que, lentamente, descia a rua garrett pensando em quantos versos escreveria a história da humanidade;
o meu amigo mário que se encantava com as belas damas parisienses, mas que dormia sufocado pela sua própria poesia.
o delírio de uma bela cidade como almada que ainda alberga o rosto todo de lisboa, mesmo que o tejo permaneça molhado acima da crosta terrestre.
jorge vicente
7.
no estiramento da alma que seca na manobra do tempo o cheiro do tejo molhado foi o único odor que ficou de ofélia
choviam estilhaços de vida no martinho da arcada, pedaços de gelo deliravam nas águas da escrita
nas regras da aparência e no nome, o general na correspondência, o espaço íntimo fora dos limites da paisagem, o ego
e o eu vencido.
sonia regina
8.
por onde vais, caminhante que procura o ego, caminhante que procura e não sente, não sente que a palavra não fica ausente. nunca. nem quando somos menos que nós. ou talvez menos do que pensamos de nós.
ainda ontem, quando passeava no tejo, vi-te a olhar para os barcos, procurando por entre os passageiros e as gaivotas. nunca encontrarás aí o teu ego. não o procures. acha-o e aceita que ele seja apenas um limite para a tua despedida do corpo. nunca abandones o corpo. ama-o como se ama uma filha saída da casa dos pais. bela como a flor de israel.
jorge vicente
9.
por onde vais, marujo, se abandonas a barca? por que não navegas, no areal, a tua visão da viscosidade afogada no teu próprio escárnio? é a quintessência animal que, com cinco braços, leva à boca os mares e bebe o rio onírico. deixa ficar a palavra e desenterra teus traços das imagens e sentidos desse paraíso perdido, atravessa as sensações num jogo de cores e sons, tempos e espaços.
na memória e na imaginação acenderás a estrofe derradeira
não se paga muito por um crepúsculo na viagem em direção às janelas ausentes de ferrolhos.
sonia regina
10.
o sol nunca se(a)paga nem a visão d'aquele que pensamos ser o sol quando, sorrateiros, abandonamos a casa paterna apenas por momentos. poderíamos chamar o momento da descoberta do corpo; poderíamos chamar o último verso escrito pelas plantas dos pés (já houve um livro de poesia sobre isso)
poderíamos apenas pensar que é uma barca que voa ou uma barca que apenas pensa que voa porque o pensamento é mais do que a madeira é mais do que a metamorfose das plantas dos pés é mais do que a poesia de todos os poetas de todos os lugares e de todos os espaços entre os lençóis.
jorge vicente
11.
visualizamos nas cinzas letras que devoram folhas, constroem o corpo unindo em si mel e sangue, luminosidade e obscuridade, vida e morte
explodimos violeta em tempestade de luzes e alcançamos a maré que entorna do umbral, espiamos por entre as fendas e nos regalamos com o que descobrimos em nós
de deuses infecundos com asas nos pés, alheias à força da criação, nos convertemos em humanos sujeitos a uma total escuridão nos passos tiranos, cuja poesia não cobiça a vida nem transtorna o juízo
sonia regina
12.
onde está a escuridão. no passo lento com o qual atravessamos a estrada. a estrada larga que cresce nas avenidas e diminui nas veias da carne que é a nossa e que pode ser a tua, se quiseres. se o vento quiser, abriremos também as fendas que dormem na escuridão e a partem em dois: são velas, fogos de cor, chamas violeta que encandeiam o mais subtil dos seres.
onde estás tu, não sei. mas a terra é pequena demais para o poema.
jorge vicente
13.
nunca pensei que a escuridão me causasse. e assim foi ontem: um dia de impacto. quem sabe internamente eu te buscasse fora da estrada, em sintonia fina e estreita com a avenida para lá do visto. o teu dizer me venceu e falamos juntos, tu, eu e as veias que crescem quietas.
nesta noite o vento não me verá, mas eu o escutarei em nossa terra; haverá quem o ouça além.
ainda me doem em vermelho as três fendas que atravessei contigo, mas me sorriram e banhei-me em seu violeta sem medo das salamandras. brinco com o fogo do poema e não sei onde estou, apenas sou.
sonia regina
14.
e eu apenas acabo. sou o poema dividido em dois. o suor duplo. o impacto duplo. a súbita transfiguração de duas amas num verso só, num dom violeta de inquietação.
selo o poema com este beijo azul
jorge vicente
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sonia regina - na manobra do tempo
"Nos cafés espero a vida Que nunca vem ter comigo" - Mário de Sá-Carneiro In: Cinco Horas 
na manobra do tempo
no estiramento da alma que seca na manobra do tempo o cheiro do tejo molhado foi o único odor que ficou de ofélia choviam estilhaços de vida no martinho da arcada, pedaços de gelo deliravam nas águas da escrita nas regras da aparência e no nome, o general na correspondência, o espaço íntimo fora dos limites da paisagem, o ego e o eu vencido. sonia regina 18.11.08
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sonia regina - olhar que se abre
o olhar que se abre
façanhas infantis que desafiam a sensatez refletem o poder da vontade: as crianças se vinculam aos deuses e se elevam à categoria de divindade digamos que dimensões antagônicas se resolvem em unidade no aspecto da pureza humana, o conhecimento não covarde das letras personifica a faculdade de realizar o olhar que se abre em luz
escutar o sol nas palavras e cantar na escuridão das páginas cura estigmas e revolve o obscuro
sonia regina 18.11.08 imagem: galileo photos
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sonia regina - rastros de ti

rastros de ti
enquanto te exilares de ti é impossível verificar se quem te persegue não és tu ou o que, de ti, depositas no dinheiro com que te compram os fragmentos: és menos clemente que todos os deuses atenta à tua parte deliberada, mergulha em teus subterrâneos, a estrada da aldeia te levará aos rastros de ti projetados nas árvores do caminho. eu somente desvelo um pouco da história desse teu ‘eu' escrito na superfície estética do poema. alimento-me do teu timbre, é nele que colocas o teu olhar interativo, líquido e movente. quando em vida escreves aos mortos, thanatos supera-me e vai ao teu encalço através dos rastros de cunho estético.
sonia regina 18.11.08
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sonia regina - num sopro de idéia perambulando
num sopro de idéia perambulando
o melhor vôo é o que se faz no vácuo além das asas, num sopro de idéia perambulando como a lua sem gravidade, cujas portas de desterro fecharam-se ao silencio retirado da parede da casa o espinho, sem ritual despertam os adormecidos cabelos e a esfinge piedosamente revela o enigma da criação
à luz da hora grande o gosto de sal na água ardente acorda o milagre que nos chega no momento certo. nós, embora sem asas, ouvimos os pássaros. sonia regina 18.11.08
Imagem: Alpo Syvanen
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