no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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sonia regina - a expressão fundamental dos opostos

 

 

a expressão fundamental dos opostos



dissiparam-se as névoas batizadas, não escolhido
nenhum dentre os muitos caminhos que levavam
do apego à morte pacífica e indolor

o carmim ferve novamente nas veias, nos subterrâneos
da essência principia o retorno à centelha

sem falhas o loureiro germina ereto e, sereno, ampara
a virtude golpeada pela ignorância

brotam ramagens, pardais encontram um nome

o todo não cabe na parte, o caos cede aos construtores
: inicia-se a expressão fundamental dos opostos.


sonia regina
28.11.08


imagem: Haleh Bryan

 



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sonia regina - espelhando a limpidez

 

espelhando a limpidez



no grande vazio de sons as bocas se alimentaram
de ar denso e pesado, formando poderoso hálito

a duplicidade de sabores apagou erros
de fantasia tolamente adocicada,
quatro estações reiniciaram o ciclo

quietudes temperavam atividades com algum mistério

quando a brisa soprava ludicamente sem causa ou fim
fogos ardiam nutrindo almas e corpos, em silencio

os mergulhos na ternura espelhavam a limpidez


sonia regina
26.11.08


 



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Semeadouro de Verbos - Dúnia de Freitas

 

 



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sonia regina - nada mais se lê, aquém dos céus

nada mais se lê, aquém dos céus




relampeja nos espaços abertos

longe, nas bordas dos versos
inspirados, as nervuras do areal
clamam por nova geometria

chove. numa penetração oblíqua
do soro da vida, um último alento
suspira a seca, exangue

nas mãos molhadas a escritura
indecifrável respira, devagar,
palavras sem ambivalência

nada mais se lê, aquém dos céus.


sonia regina
10.12.08



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sonia regina - na sombra dos gestos repisados

na sombra dos gestos repisados


o desgosto é o que recorda e inaugura.
é um conhecimento dos fatos, acontece
na sombra dos gestos repisados.
movimenta-se na colheita de outras estações
como letras vivas a meio caminho da erupção.


sonia regina
9.12.08




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sonia regina - no gosto do mosto, a verdade do vinho

no gosto do mosto, a verdade do vinho




a passagem da água ou do fogo vibra
quando em modo puríssimo a terra ensaia
destampar pequenos tesouros

não imune à impermanência dos ciclos,
a compacta versão dos fatos apaga detalhes
ao condensar ou abrir caminhos

na saudade restam as impressões do ritmo
e da constância das estações

muito é tragado antecipadamente por um coração
alado se, no gosto do mosto, o aroma saboreia
a verdade do vinho.


sonia regina
9.12.08

 



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sonia regina - o desgosto arde na primavera

 

 

o desgosto arde na primavera


dobremos o cabo das tormentas
com palavras suavemente
adoçadas num tempo de chuva.
há sempre uma lareira imaginária
a nos aquecer a alma fecundada;
sobre o tapete um ovo desenhado
já ganha vida e nos aguarda
os corpos e as sombras.

se o desgosto arde na primavera,
fatos não rascunhados firmam-se
no verão.


sonia regina
08.12.08



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sonia regina e jorge vicente - castigo

castigo
sonia regina e jorge vicente


1.

nada se escuta, senão
o silenciar da dúvida

e sua consolidação,
que castiga

não tanto o fado,
cantiga dos ventos
que já não pulsam,

quanto a decadência
dos tempos.


sonia regina


2.

nada se escuta
senão a cicuta
que amortalha a pele
e os ossos,

nada se vibra
senão a foz e o verso

que rouba dos pés
o lírio vermelho
do dia.

jorge vicente


3.

nada vibra aquém, na noite
ouve-se o chamamento
do brilho

na chama em que me perco
arde, no verso, o gosto
de mais um beijo


sonia regina


4.

há um paladar e um gosto a alecrim
nas palavras que escreves: ou serão
as palavras vestidas de todas as
plantas, como se a selva marulhasse
e enchesse a poesia dos sons, dos
toques, do mistério do saci e do
boto.

temo que iemanjá não me perdoe
e cante uma canção em minha morte.

jorge vicente


5.

busca força nos sabores e cheiros
da natureza, procura o sublime
e o experimenta nas palavras,
as imagens em movimento

é assim, meu senhor, é assim:
levanta-te e anda

busca o que dê sentido
à existência do poema,
crucificada pelo hermetismo


sonia regina


6.

ainda ontem vi hermes segurando no caudal
de uma estrela. ou terá sido apenas a figura
de um livro, aqueles que lemos e ouvimos
quando crianças somos, incólumes e sem mácula

talvez sejam os livros sejam herméticos
ou talvez hermes esteja mesmo lá, se tenha
transformado por meios químicos em pasta
de papel e se transformado. assim vira os
olhos, página a página, segundo a segundo
e não se lembra se alguma vez houve um
terceiro género na poesia.

jorge vicente


7.

façanhas infantis que desafiam a sensatez
refletem o poder da vontade:
as crianças se vinculam aos deuses
e se elevam à categoria de divindade

digamos que dimensões antagônicas se resolvem
em unidade no aspecto da pureza humana,
o conhecimento não covarde das letras personifica
a faculdade de realizar o olhar que se abre em luz

escutar o sol nas palavras e cantar na escuridão
das páginas cura estigmas e revolve o obscuro


sonia regina


8.

o obscuro soletra a noite. cinco palavras.
uma. duas. as três personificações da
lua, como num conto de mizoguchi.
quatro. o apocalipse está perto e
não é nada daquilo que imaginamos.
os quatro cavaleiros combinaram entre
si trazer quatro presentes de prata.

o quinto somos nós e o presente~
o dom da lua.

jorge vicente


9.

o obscuro canta no porão, no sótão brilha a lua
acima dos olhos que só vêem uma face
e não libertam o dragão selvagem prometido.

retirar o fogo das nossas sombras é a alquimia
que nos faz nascer da prata após as núpcias
do céu e do inferno.


sonia regina


10.

respondo às núpcias: existe uma génese
um começo
uma inclinação dos eixos
aquilo a que os padres chamava,
o pecado.

a inclinação da terra na direcção
da terra-madre: a sacrossanta
face de um papel de cosmos.

jorge vicente


11.

o habitante dos céus, o intangível,
palpita na realidade mundana
e se inclina para as profundezas,
para os subterrâneos:
fonte de memória do que foi, é e será;
mundo da essência anterior ao pecado;
reino que dá substancia à forma
e ao firmamento, além do profundo
dos mares, em todos os lugares.


sonia regina


12.

o habitante dos céus vive em todos
os lugares, em todas as folhas, em todos
os pedaços de chão ternamente repartidos.
é dele o céu que vemos, o mar que abrimos,
o pão que queimamos, quando acordamos
para o céu de agosto.

eu sei que não é agosto e que o habitante
dos céus não tem verão, mas sabe tão bem:
a torrada ao acordar e o sono dos homens
que se deixam ficar

jorge vicente


13.

quando todas as sombras são translúcidas,
é diáfana a presença no azul.

ternamente o habitante dos céus sonha
um verão para os homens que não respiram
nada que não se perca pelo caminho

nesses dias de madorna em que tudo foi cansaço,
nenhuma angústia sem razão anunciou janeiro.
tampouco o razoável explica um estado posterior
àquela melancolia que chorou a última lágrima
violentamente, sem beleza.

em meio ao emaranhado de pães torrados,
a sizígia.


sonia regina


14.

o azul cresce no mar
e nas mornas ondas da terra.
tenho os olhos da cor das algas,
das senzalas e dos quilombos
em que passeio. o mar é tudo
isso: a libertação do homem novo,
do homem velho, do homem antigo.

é a sombra translúcida dos antepassados
que vieram antes dos peixes.

jorge vicente


15.

andamos em campos minados,
lagos, rios, planícies, planaltos,
sobre pedra e barro molhado

nos pinhais, praias, cabos,
nos pântanos assombrados
temos corrido, rido, nadado

infinito é o gosto de verão que criamos.
pomos no sabor de cada onda furada
uma alquimia. fortuita, no silêncio d'água

a pergunta na pele esconde dos olhos
os instantes oferecidos, o despertar
das eras azuis avoluma o oceano

e maya agoniza, no estio.


sonia regina


16.

maya agoniza no mês das chuvas,
a terra índia salpicada de lençóis d'água
cálida

em santa catarina, os homens fogem e
as mulheres gritam pelo seu anjo protector.
tenho uma infância que não é minha
e uma dor de água que me encobre o corpo
inteiro. salpico-me pelas lojas e pelos cafés
da avenida enquanto os carros passam desabrigados.

sei que, em portugal faz sol, mas não há
tanta poesia. os homens escrevem e salpicam-se
de versos. de dor, eu sei, mas deus tudo vê
e nada resolve.

jorge vicente


17.

sucumbe maya, soterrada no imenso vazio
sem causa e sem fim. erguem-se os cristais
d'água ao chamado do coração da rosa

evaporam, cumpridos os sete decretos

num espaço sem tempo selam-se as lágrimas
mordidas no fogo que purifica a terra índia

sem anjo protetor, santa catarina ilumina seu dia
salpicando-o de versos, clareando as entranhas
da noite, convocando o sol

das profundezas das águas ouve-se o gemido
da saudade, na gênese da separação


sonia regina


18.

não há separação possível, minha boa amiga,
o verso é tua mudez, assim como as tuas
palavras

a tua fronte e o teu olhar interno;
o teu olhar e o sorriso por detrás dos dedos

nunca há separação porque santa catarina
escreve versos. e lê-os para mim. sabes, o
coração dos místicos está sempre acordado.
e é sempre imune ao rebentamento da chuva.

jorge vicente


19.

li versos, vi a morte, dei condolências ao belo

emudeci, mas não retornaram ao inevitável
as minhas palavras nem neguei o fruto possível
dos dedos que sorriram da câmara mortuária

nada enterrei do dizimado, nada busquei.
um sorriso de inverno acordou, da crueldade
da paixão das águas

no ventre do vento norte guardei raios e trovões,
o sudoeste lambeu o tudo ofertado à invocação
dos sentidos, peixes saltaram do baú de tesouros

aberto, ao léu. desfrutado, a dois.


sonia regina


20.

a dois, o tesouro é partilhado.
numa nuvem de peixes, dividimos o mundo
e cantaremos numa língua desconhecida.

será talvez a língua da água, a areia debaixo
da areia, a pedra abaixo da pedra
como se não houvesse lava e apenas terra e vento
e homens grandes no centro do universo.

dizem que abaixo dos pés faz calor
eu digo: abaixo da pele, temos todos
os astros que possamos invocar.

jorge vicente


21.

tesouros compartilhados não me ocultam na trama
da minha fábula, narrativas não são atos de caridade.

a linguagem flui nas representações. cobiça que se fixem,
na terra e na água, o fervor e o júbilo, a ternura, um tempo
e distância não lineares

e, a língua, arde. queima em meus versos ao colher o enigma,
o segredo do sensível liberto na pele. é o fascínio do poema
aguardando a tradução num idioma possível.


sonia regina


22.

e o idioma possível
é a alma de dois poetas se juntando
e escrevendo juntos.

a plena lua,
o mar das gentes e
das palavras
que
nunca se desgastam
e nascem sempre.

a fénix das asas longas.

jorge vicente

 



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sonia regina - alinhavos


alinhavos

 



 

embora não se entendam os hiatos,
as temporadas evitam justificativas

o ciclo retira o atraso para que seja,
o lapso, como uma rolha espatifada
que não altera o sabor do vinho

o ilegítimo perturba a pueril franqueza
do mar enquanto momentos de areia
exaurem-se ao sol

e, eu, alinhavo vazios que confinavam
e trago na bolsa o teu sorriso, envolto
nos raios do verão que me trouxeste

não mais me exilo nas noites tropicais

sim, também somos água. e vertemos
da imagem que ousa beber no vento
a força do temporal

somos o que colhemos na tempestade;
no amarelo brilhamos

sem mais alarde, um ninho
ao sol.


sonia regina
24.11.08

 



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sonia regina e jorge Vicente - onde pulsa o sol

onde pulsa o sol
sonia regina e jorge Vicente



"Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha." Ramos Rosa




1.

carinhosamente respondo-te de uma calmaria,
mas não sei do que resvale ou fuja

digo-te do afago em tuas sílabas do repouso,
ternura a me acolher a letra e a me receber,
folha ou pássaro

escreves em minha pele, já vento,
sopram os teu dedos no meu corpo,
em meus lábios desenhas o sentido

da felicidade

no movimento do fogo a paciência
do teu amor, em ondulação suave,
toca o fundo aberto da palavra

que cintila, branca,
onde pulsa o sol.


sonia regina


2.

onde pulsa o sol
é onde pulsa o anjo
e o demónio - a luz
solar, a luz branca,
o gelo dos sentidos
e do afago.

jorge vicente


3.

onde nada se escuta
senão o silenciar da dúvida
e sua consolidação,

que castiga

não tanto o fado, cantiga
dos ventos
que já não pulsam

quanto a decadência
dos tempos


sonia regina


4.

os tempos decantam-se
e ouvem o que está por detrás

eu fico: apenas a dúvida de
como calar e fugir e ouvir
a sete pés o amor que
encosto nos dedos
que escrevo.

jorge vicente


5.

atrás de uma xícara vazia
haverá um corpo gelado
se ficas sobre a madeira
sem lume

no calor da tua alegria eu resisto
quando, na rua, a luz se apaga
e no jornal já não se lê senão
do crepúsculo dos mistérios


sonia regina


6.

amanhecem os mistérios
e a pítia já se encanta com
os seus súbditos, o seu olho
terceiro que toca e é tocado:

sei que foi nesse momento
que nasceu o verso primeiro,
o restolhar dos mistérios e de
todos os signos das palavras.

jorge vicente


7.

o humano é exilado de si,
não há alvorada do enigma

é à noite que eros impede
o esquecimento, movimenta
os sentidos para o coração

nutre a alma do que é da sua natureza


sonia regina


8.

será que o velho amante,
deus da morte e do silêncio,
thanatos ainda me persegue?

pergunto-te, eros, onde vai
a estrada da aldeia.
vejo pequenas campas ao longo
da estrada e nenhuma bomba
que surja do emaranhado das
árvores. pergunto-te, eros, em
que terra surges, com que tecido
te alimentas, se das heras que
alimentam a casa se dos repasto
dos bichos e das térmitas que ainda
ouço à noite, quando escrevo um poema
aos mortos.

pergunto-te, eros, com que dinheiro
a casa foi reconstruída. ainda ontem
estive em dubrovnik e só vejo turistas
a encherem os bolsos. também eu vivo
no adriático e peço que os deuses
sejam inclementes.

jorge vicente


9.

enquanto te exilares de ti é impossível
verificar se quem te persegue não és tu
ou o que, de ti, depositas no dinheiro
com que te compram os fragmentos:
és menos clemente que todos os deuses

atenta à tua parte deliberada,
mergulha em teus subterrâneos,

a estrada da aldeia te levará aos rastros
de ti projetados nas árvores do caminho.
eu somente desvelo um pouco da história
desse teu `eu' escrito na superfície estética
do poema.

alimento-me do teu timbre,
é nele que colocas o teu olhar interativo,
líquido e movente.

quando em vida escreves aos mortos,
thanatos supera-me e vai ao teu encalço
através dos rastros de cunho estético.


sonia regina


10.

thanatos sempre me supera. e ainda bem.
porque o dom da vida é sempre igual ao
dom da morte. o dom de abandonar. de
estar silente. de pernoitar no que as ervas
sobram. e no que os caminhos desconhecem.

nunca me exilarei de mim. a aldeia estará sempre
comigo, mesmo que a árvore seja o mais pequeno
baloiço de brincar que vejo entre os prédios.

jorge vicente


11.

emocionados caminhamos para o amor
ou o horror, ladeados pelo desejo
- o de buscar e o de ir em direção contrária;
eros preenche com vida nova os hiatos
que thanatos causa inces¬santemente.
a mente - capturada pela emoção estética -
resta acima do desejo e do ódio.

não expulsa o subjetivo, que não te perderás de ti
e não haverá solidão. seja a aldeia vista ou imaginada,
as árvores balançarão ao vento que nada mais separa
porque a essência terá retomado o corpo.


sonia regina


12.

a essência retoma sempre o corpo
porque eros assim o quer.
ou será hades, o deus das profundezas
dos vácuos de pedra, dos lugares sertanejos
onde o interior é apenas ausência de mar.

ouço um bandolim bem debaixo das ruínas
da cidade. não há subterrênos mais fundos
do que aquilo que ouvimos e amamos sempre
mais.

será eros. será hades. será rei édipo retornando
do exílio em colono? nunca há um exílio tão belo
onde aquele em que finalmente se vê.

jorge vicente


13.

os olhos se fecham: não querem ser vistos.
é esse o exílio do olhar que, no leito, se deita
com a ausência do toque - não há morte ou
incesto quando a pele espelha as sombras

para não queimar a retina das habitações poéticas,
o enredo é sem poesia e de uma narrativa oblíqua:
é golpeado o argumento na memória viva de cenas
domésticas e voa em papel para debaixo da cama

o ilícito e o iníquo transmutam-se no guerreiro
tenaz e heróico, lideram a transparência, choram
o atrito das pedras escuras que não fazem fogo


sonia regina


14.

vivo por entre as pedras. construo casas e habitações.
moradas. mansões. templos do saber espiritual. está
tudo dentro de mim. as casas e as mansões. nada está
fora. nada está debaixo. podes ver. podes sentir. podes
tocar com a pele e com o sexo. há quem diga que a religião
só se evoca se saltarmos três vezes por cima de uma
árvore dourada. sabes, aquelas árvores onde o sol bate
cada vez que nos deitamos. dizem que foi cupido que a
acordou. e que cismou de deitar o sol acima dela.

jorge vicente


15.

tu me emprestaste o olhar e eu as vi, pedras e mansões.
mas toquei num cenário espinhoso, em preto e branco.
não havia festa na cor nem o sol era bem vindo, sucumbia
em agonia o dourado da árvore

ainda tentei saltá-la, mas já não havia religião para a sede,
embora eu a acudisse - ainda que sem água - ao anunciar
o cinza da nuvem, quando acordava

entretanto, saltitei. meu passo estreitou-se, marcou o tempo
e eu o finquei na terra, esperançada. cupido voou sobre ela,
alagou meu sorriso e coloriu minha casa e árvore com o sol.

ah, amigo, hoje meus olhos gotejam contigo a anunciação.


sonia regina


16.

gabriel está comigo. sempre está comigo,
desde o dia em que meditei pela última vez.
disse-me que era o anjo da anunciação,
mas que a mim não me anunciava coisa nenhuma
pois tudo já fora inventado pela boca do poeta.

disse-me que conhecera tirésias quando ainda
tinha asas pequeninas e mamava na pomba do
céu superior. sabes, disse ele, no céu os animais
são como os homens: têm alma e filosofia e sabem
escrever e ler como ninguém. foi a pomba, disse-me
ele, que criou as primeiras letras, os primeiros símbolos
matemáticos. ele ainda era pequenino, mas as asas
já eram enormes e levantavam os mares e os ventos
e criaram os primeiros continentes.

sabes, disse ele, tenho saudades desses primeiros tempos.

jorge vicente


17.

também eu tenho saudades de sentir o pulsar do sol.
vi muitos ombros amparando-se em corpos sem braços
que meditavam. sem qualquer movimento o pensamento
aquietava-se entre as imagens; livros e páginas escritos
a lápis foram apagados por atos ensandecidos

entontecia o gelar do sangue no corpo à espera do prenúncio
do rito, um gosto acre e doce prendia as vozes

gabriel, arcanjo da cura, imprimia ritmo aos vôos sem asas

a liberdade roçou aquelas faces com a essência animal;
na transfiguração da mata penetrou-se o vazio, sem medo
ou pudor

nenhum dizer senão o de tirésias desagradou zeus, depois
do conhecimento do feminino e do masculino.


sonia regina


18.

todos os conhecimentos desagradam o deus
pelo menos aquele dos olhos largos, que vêm
tudo, que sentem tudo, que ouvem o que não
podem ouvir

pois nem tudo pode ser visto
nem pode tudo ser sentido
nem tudo tem o cheiro que o arcanjo
ou o deus quer,

a começar nas folhas
quando chove, o cheiro da terra
molhada, da terra que não é terra
senão chuva misturada no acre da semente.
o deus, aquele que vê tudo, apenas vê
uma imensa bola gigante com animais e gente dentro.

gabriel, o anjo das asas brancas, chora
e diz-lhe que o mundo é sem porquê.

jorge vicente


19.

deuses gerem os mistérios do princípio,
não o caminho para a individuação;
a criação das nuvens e da chuva estanca
antes do usufruto, o que comove o brilho
angelical

em horas ressecadas o sacro não mergulha
no solo para ser fertilizado; não vê a relva
que recobre o barro num abraço vermelho

a terra exubera intensa fertilidade em linguagem
varrida de palavras, há graça nos sem porquê:
talvez o ar por demais corrompido traga
um eros que deflore círculos viciosos


sonia regina


20.

pergunto-te, eros, se achas o mundo corrupto.
se achas o amor apenas uma palavra sem sentido
ou a exaltação de toda a tua existência.
talvez, meu amigo, descubras que o mundo é
sempre sem porquê, sem respostas
e que o amor é sempre o mesmo amor
na corola do flor

e na mulher que descobre o sexo pela primeira
vez. talvez perguntes, eros, se o poema diz
isso tudo: não diz. os homens dizem.
e é o homem que escreve sempre o chão.

jorge vicente


21.

`não existo na simetria, disse-me eros, `no amor
não há forma ou vontade corruptível', `dele vêm
a natureza e o heróico.'

falou-me do deslumbre das paixões exaltadas
com o lume, quando a luz não surpreende;
do poema que escuta os vãos aproximando
a intimidade do estranhamento; da negligência
flutuante que torna a orientação um descaminho.

fascina, essa leitura que provoca cometimentos:
o chão deixa de ser referência, o céu propõe
estabilidade, através dos mitos e sonhos o íntimo
encanta-se, fazendo a escritura dos contrários.

sem ter a quem vencer, a vida se iguala à morte
que provoca renascimento.


sonia regina


22.

e tu renasces?

renasces nos silêncios do verso, nas entrelinhas que o corpo tece
entre as unhas? eu sou a pele, a pele frágil, mas intensa,
murmurando águas e cabelos e toques entre os dedos
a memória frágil da mais bela manhã do mundo.

jorge vicente


23.

só é provocado quem acaba.

eu nunca terminei, talvez nunca tenha começado. nem no silêncio
do meu verso houve entrelinhas. sem corpo enfrentei o todo relativo
e o absoluto avesso do nada.

numa época inábil em cinzas não ocupei senão umidades ligeiras.
fênix era um mito, assim como a chuva redentora que não vinha
das águas que murmuravam na pele dos que tinham memória

atrás da minha letra narciso dançava com o espelho em busca de si
: eu era a cantiga pressentida que não acalmava, atiçava ou acolhia.


sonia regina

 



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sonia regina e jorge vicente - sem razão


sem razão
sonia regina e jorge vicente


1.

as noites de primavera parecem amornadas
pelo fogo das águas douradas sem razão

ventos se divertem, o sopro não salga o olhar

enxergar é ver além daquilo que se mostra;
a percepção intui, não requer explicação.


sonia regina


2.

nada requer explicação
o poema não existe
e o que resta de nós
apenas do nosso corpo é:

a alma fica no lugar calmo
da cama, onde a noite não
se escuta e onde a cicuta
mais não é do que um pássaro
sem asas.

jorge vicente


3.

nada requer explicação

brilha o carmim nas veias
e apenas dorme na alma
a angústia

do negro da asa quebrada
vem a noite, a criança chora
a perda da ilusão do poema


sonia regina


4.

nunca a criança chora
e nunca o poema tem lágrimas:
apenas palavras, signos d'água
e de tecido branco.

a não ser assim, como poderia
a nau ter navegado e ter surgido
no astro da noite, na alvorada
que se quer frágil mas que conta
a história dos homens e dos peixes.

jorge vicente


5.

o poema diz, pergunta, duvida:
incessantemente

para ir mais além

desse momento, da utopia,
da realidade concreta,
da própria ação cotidiana

impregnado da invenção de cada um,
a par do mágico e do sagrado


sonia regina


6.

é o mágico e é o sagrado
que faz o verso. o lamento de orpheu
e dos poetas que aí deixaram memória:
o fernando que, lentamente, descia
a rua garrett pensando em quantos
versos escreveria a história da humanidade;

o meu amigo mário que se encantava com
as belas damas parisienses, mas que dormia
sufocado pela sua própria poesia.

o delírio de uma bela cidade como almada
que ainda alberga o rosto todo de lisboa,
mesmo que o tejo permaneça molhado
acima da crosta terrestre.

jorge vicente

7.

no estiramento da alma que seca na manobra
do tempo o cheiro do tejo molhado foi o único odor
que ficou de ofélia

choviam estilhaços de vida no martinho da arcada,
pedaços de gelo deliravam nas águas da escrita

nas regras da aparência e no nome, o general
na correspondência, o espaço íntimo
fora dos limites da paisagem, o ego

e o eu vencido.


sonia regina


8.

por onde vais, caminhante que procura o ego,
caminhante que procura e não sente,
não sente que a palavra não fica ausente.
nunca. nem quando somos menos que nós.
ou talvez menos do que pensamos de nós.

ainda ontem, quando passeava no tejo,
vi-te a olhar para os barcos, procurando
por entre os passageiros e as gaivotas.
nunca encontrarás aí o teu ego. não
o procures. acha-o e aceita que ele seja
apenas um limite para a tua despedida do
corpo. nunca abandones o corpo. ama-o
como se ama uma filha saída da casa dos
pais. bela como a flor de israel.

jorge vicente


9.

por onde vais, marujo, se abandonas a barca?
por que não navegas, no areal, a tua visão
da viscosidade afogada no teu próprio escárnio?
é a quintessência animal que, com cinco braços,
leva à boca os mares e bebe o rio onírico.
deixa ficar a palavra e desenterra teus traços
das imagens e sentidos desse paraíso perdido,
atravessa as sensações num jogo de cores e sons,
tempos e espaços.

na memória e na imaginação acenderás
a estrofe derradeira

não se paga muito por um crepúsculo na viagem
em direção às janelas ausentes de ferrolhos.


sonia regina


10.

o sol nunca se(a)paga nem a visão
d'aquele que pensamos ser o sol quando,
sorrateiros, abandonamos a casa paterna
apenas por momentos. poderíamos chamar
o momento da descoberta do corpo; poderíamos
chamar o último verso escrito pelas plantas
dos pés (já houve um livro de poesia sobre isso)

poderíamos apenas pensar que é uma barca
que voa ou uma barca que apenas pensa
que voa porque o pensamento é mais do que
a madeira é mais do que a metamorfose
das plantas dos pés é mais do que a poesia
de todos os poetas de todos os lugares
e de todos os espaços entre os lençóis.

jorge vicente


11.

visualizamos nas cinzas letras que devoram
folhas, constroem o corpo unindo em si mel
e sangue, luminosidade e obscuridade,
vida e morte

explodimos violeta em tempestade de luzes
e alcançamos a maré que entorna do umbral,
espiamos por entre as fendas e nos regalamos
com o que descobrimos em nós

de deuses infecundos com asas nos pés, alheias
à força da criação, nos convertemos em humanos
sujeitos a uma total escuridão nos passos tiranos,
cuja poesia não cobiça a vida nem transtorna o juízo


sonia regina


12.

onde está a escuridão. no passo lento com o qual
atravessamos a estrada. a estrada larga que cresce
nas avenidas e diminui nas veias da carne que é a
nossa e que pode ser a tua, se quiseres. se o vento
quiser, abriremos também as fendas que dormem na
escuridão e a partem em dois: são velas, fogos de cor,
chamas violeta que encandeiam o mais subtil dos seres.

onde estás tu, não sei. mas a terra é pequena demais
para o poema.

jorge vicente


13.

nunca pensei que a escuridão me causasse. e assim foi
ontem: um dia de impacto.
quem sabe internamente eu te buscasse fora da estrada,
em sintonia fina e estreita com a avenida para lá do visto.
o teu dizer me venceu e falamos juntos, tu, eu e as veias
que crescem quietas.

nesta noite o vento não me verá, mas eu o escutarei
em nossa terra; haverá quem o ouça além.

ainda me doem em vermelho as três fendas que atravessei
contigo, mas me sorriram e banhei-me em seu violeta
sem medo das salamandras. brinco com o fogo do poema
e não sei onde estou, apenas sou.


sonia regina


14.

e eu apenas acabo. sou o poema dividido em dois.
o suor duplo. o impacto duplo. a súbita transfiguração
de duas amas num verso só, num dom violeta
de inquietação.

selo o poema com este beijo azul

jorge vicente


 



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sonia regina - na manobra do tempo

  

"Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo"
- Mário de Sá-Carneiro

In: Cinco Horas


na manobra do tempo


no estiramento da alma que seca na manobra
do tempo o cheiro do tejo molhado foi o único odor
que ficou de ofélia

choviam estilhaços de vida no martinho da arcada,
pedaços de gelo deliravam nas águas da escrita

nas regras da aparência e no nome, o general
na correspondência, o espaço íntimo
fora dos limites da paisagem, o ego

e o eu vencido.


sonia regina
18.11.08


 



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sonia regina - olhar que se abre

 

 


o olhar que se abre


façanhas infantis que desafiam a sensatez
refletem o poder da vontade:
as crianças se vinculam aos deuses
e se elevam à categoria de divindade

digamos que dimensões antagônicas se resolvem
em unidade no aspecto da pureza humana,
o conhecimento não covarde das letras personifica
a faculdade de realizar o olhar que se abre em luz

escutar o sol nas palavras e cantar na escuridão
das páginas cura estigmas e revolve o obscuro


sonia regina
18.11.08

 

 

imagem: galileo photos

 



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sonia regina - rastros de ti

 

rastros de ti


enquanto te exilares de ti é impossível
verificar se quem te persegue não és tu
ou o que, de ti, depositas no dinheiro
com que te compram os fragmentos:
és menos clemente que todos os deuses

atenta à tua parte deliberada,
mergulha em teus subterrâneos,

a estrada da aldeia te levará aos rastros
de ti projetados nas árvores do caminho.
eu somente desvelo um pouco da história
desse teu ‘eu' escrito na superfície estética
do poema.

alimento-me do teu timbre,
é nele que colocas o teu olhar interativo,
líquido e movente.

quando em vida escreves aos mortos,
thanatos supera-me e vai ao teu encalço
através dos rastros de cunho estético.


sonia regina
18.11.08



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sonia regina - num sopro de idéia perambulando

 

                                                                                      

 


num sopro de idéia perambulando


o melhor vôo
é o que se faz no vácuo
além das asas, num sopro
de idéia perambulando

como a lua sem gravidade,
cujas portas de desterro
fecharam-se ao silencio

retirado da parede da casa
o espinho, sem ritual
despertam os adormecidos cabelos
e a esfinge piedosamente revela
o enigma da criação

à luz da hora grande o gosto de sal
na água ardente acorda o milagre
que nos chega no momento certo.

nós, embora sem asas,
ouvimos os pássaros.

sonia regina
18.11.08


Imagem: Alpo Syvanen

 



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