no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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sonia regina - sobre a madeira sem lume

 

sobre a madeira sem lume

 

 

 

atrás duma xícara vazia

haverá um corpo gelado

se ficas sobre a madeira

sem lume

 

no calor da tua alegria

eu resisto

 

quando

na rua

a luz se apaga

e no jornal já não se lê

senão

o crepúsculo do mistério

 

sonia regina

16.11.08



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sonia regina - já sem fumo

 

já sem fumo

como fazer brilhar uma luz

na floresta, se na chaminé

da casa já nem há fumo?

 

o desassossego não vive além

do esquecimento, o poema

não é a lembrança de um sabor

de maçã

 

o verso, escreve-se, enquanto

dançam os demonios e anjos

 

 

sonia regina

16.11.08


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Luisa Barbara e Jorge Vicente - Exumação II

 

 

 

imagem: Gloria Lamson

 

 

 

Exumação II

Luísa Bárbara e Jorge Vicente

 

 

1.

 

numa cremação no papel que não profana

– como quem raspa da pedra a inscrição -,

o retrato arranca da face o que não foi visto.

 

Luísa Bárbara

 

2.

 

a realidade vibra com o não-sentido,
ou visto apenas por trás como
se das penas nascessem olhos.

 

Jorge Vicente

 

3.

 

a cada novo instante, outro início

 

no medo de planejar sem calma,

o receio de ultrapassar objetivos.

 

Luísa Bárbara

 

4.

 

tenho receio dos adjectivos,
das palavras que explicam
o que está do outro lado:
 
o lado fértil da folha.

 

Jorge vicente

 

5.

 

pouco sei do que não vejo

mas percebo, ou intuo

 

se a qualidade da palavra

não cala - do gesto - o timbre,

na folha se fecunda o verso.

 

Luísa Bárbara


6.

 

na folha o verso é barriga d' árvore,
vento ceifeiro que corta e é cortado,
 
junco cipreste dourado
à espera de ser amaciado.

 

Jorge vicente

 

7.

 

o que amacia um verso? algum condimento, talento,

um cenário tropical?

 

talvez pitadas de sal, vinho, alho, folhas de louro

sem vento... a palavra temperada

à sombra da macieira n’algum quintal

 

Luísa Bárbara

 

8.

 

será a macieira
será a nespereira o fruto
que exalta o poeta
 
ou será a semente por
detrás das raízes, os
flocos de seiva que se encolhem
e fogem, como se da poesia nascesse
um rugir imenso que os fizesse tremer.
 
talvez seja deus que diga o último verso
talvez aquele a quem chamámos de orfeu
atrás da sua eurídice.
 
não importa.
o que importa é que somos com tudo
o que grita.

Jorge Vicente

 

9.

 

uma exaltação, o rugido
que lacrimeja o poema
antes à lira restrito,
sílabas musicais estanques
nas bordas do som
 
de orfeu atrás de eurídice
a súplica fez-se em versos,
os primeiros cantados
 
o real e os mitos choraram
enternecidos, o abutre cessou
de despedaçar fígados
 
sísifo sentou-se em seu rochedo
para escutar o rompimento
do silencio
                 não mais relativo.
 

 

 

 

Luísa Bárbara


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sonia regina - sem razão

 

 



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sonia regina - acalanto

 

 



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sonia regina - castigo

 

 



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Anne Perrier - In O Próximo Voo das Aves

 

 
 

Poesia das cinco

XIII

 


Vê irmão marinheiro
Não é aqui
Que as nossas lágrimas cintilam
Tememos acaso as vagas
E a corrente azul sem fim
Nas nossas veias
É já o vento vem e dançaremos
Rápidos golfinhos
Nos séculos alagados

                                  

                                 Anne Perrier

 

 

In O Próximo Voo das Aves. Poetas em Mateus, Quetzal Editores. 2000

imagem: Kathy Breen



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sonia regina - anjos

 

 

 



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