
imagem: Gloria Lamson Exumação II Luísa Bárbara e Jorge Vicente 1. numa cremação no papel que não profana – como quem raspa da pedra a inscrição -, o retrato arranca da face o que não foi visto. Luísa Bárbara 2. a realidade vibra com o não-sentido, ou visto apenas por trás como se das penas nascessem olhos. Jorge Vicente 3. a cada novo instante, outro início no medo de planejar sem calma, o receio de ultrapassar objetivos. Luísa Bárbara 4. tenho receio dos adjectivos, das palavras que explicam o que está do outro lado: o lado fértil da folha. Jorge vicente 5. pouco sei do que não vejo mas percebo, ou intuo se a qualidade da palavra não cala - do gesto - o timbre, na folha se fecunda o verso. Luísa Bárbara 6.
na folha o verso é barriga d' árvore, vento ceifeiro que corta e é cortado, junco cipreste dourado à espera de ser amaciado. Jorge vicente 7. o que amacia um verso? algum condimento, talento, um cenário tropical? talvez pitadas de sal, vinho, alho, folhas de louro sem vento... a palavra temperada à sombra da macieira n’algum quintal Luísa Bárbara 8. será a macieira será a nespereira o fruto que exalta o poeta ou será a semente por detrás das raízes, os flocos de seiva que se encolhem e fogem, como se da poesia nascesse um rugir imenso que os fizesse tremer. talvez seja deus que diga o último verso talvez aquele a quem chamámos de orfeu atrás da sua eurídice. não importa. o que importa é que somos com tudo o que grita.
Jorge Vicente 9. uma exaltação, o rugido que lacrimeja o poema antes à lira restrito, sílabas musicais estanques nas bordas do som de orfeu atrás de eurídice a súplica fez-se em versos, os primeiros cantados o real e os mitos choraram enternecidos, o abutre cessou de despedaçar fígados sísifo sentou-se em seu rochedo para escutar o rompimento do silencio não mais relativo. Luísa Bárbara |