no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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de um coração ouvidor

se te olhasses com teus dois olhos:

o que vê a sombra na superfície

e o que vê a claridade mais profunda

 

se colhesses a dor e não rejeitasses

o teu queixume, se teus espinhos

tocasses, e as feridas

 

se fosses, contigo, água cristalina

 

talvez se fosse o amargor antigo

que em ti se refaz, em tudo se recria

 

talvez te fizesses livre para edificar,

das ruínas

 

serias a flauta e o sopro, a mão

e a carícia, a boca e o beijo;

a navalha que se defende

e a que constrói, na madeira,

a imagem viva;

da visão, o grito que alerta;

do tato, o gesto que ensina;

 

a palavra que não se divide,

viria do coração;

o ódio, ao amor se integraria;

a densidade se transmutaria

em luz

 

vibrariam todos como a noite

e o dia, juntos, na unidade

da vida.

 

 

 

30.6.07

sonia regina

 



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apenas um poema

 

 

 

gosto de gastar o tempo como o sol,

esconder os cabelos nas nuvens

para depois deixar ver, caindo,

as luzes nuas

 

num estilo liso, nenhuma fábula

: apenas um poema.

 

 

 

28.6.07

 sonia regina



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se

 

 

 

se de tanto querer o mar tem crescido 

sem mobília, o fruto marinho,

e se tem transformado

de amálgama em vaga,

em alga, fecundada noutros sentidos;

 

se a metamorfose pudesse ter  ouvido

[a horas de véspera]

plenas de palavras, as ondas se

[presas nos lábios],

na escrita caíssem das águas agitadas;

 

se a sombra, numa linguagem simples,

espuma desenhasse na areia,

festas de colégios, igrejas;

 

se a ciência dos pescadores,

ao sabor do mar,

o dia adivinhasse, e a manhã

de segredo profundo, se transmutasse

nas costas de algum litoral suave,

[enseadas secretas],

de um horizonte que saltasse, de onde

talvez, o coração oculto do oceano,

enfim,

sempre se mostrasse.

 

 

sonia regina

28.6.07

 



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um chamado estrito

                                                           

 

 

não foi com ele ao baile:

além da falta da química,

a alma toda lhe fazia mal.

 

soube que se  olhava

e no espelho, narciso,

admirava a contradança

consigo - corpo e alma -

 

muito oculto, guardavam

um chamado

 

estrito.

 

 

 

27.6.07

sonia regina
 

 

 
 
 

um  chamado estrito II

 

narciso colhe jacintos

na borla do rio.
 
ri-se de ironia
que o vigia da copa das árvores.
 
só eco ouve a voz
do reflexo que tremula
na diferença da água.

 

 
josé félix
27.6.2007

 

_______________________________________

um chamado estrito III


 


ao reflexo narciso responde com a voz que assina o eco.
na volubilidade percorre aclives e declives, identifica
a si mesmo em todas as fases da colheita

só na alma com corpo conhece a guarda de um chamado
estrito.
 



sonia regina
28.6.07



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no travesseiro

 

 

 

 

 

Deus me acalma, no meu travesseiro

abre o meu sono sob a força das penas

e apascenta a noite que devora as gotas,

mesmo as do orvalho

 

nesse inverno chuvoso a felicidade

não é uma esmola e sonho que o ar

da nova estação não espanará

a poeira do segredo, elo da minha

intimidade nessa distinção divina.

 

 

                                                                                                                           

26.6.07

sonia regina
 

 



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Somos todos poetas


 


Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

 

 

                                                        Murilo Mendes

 



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A lucidez perigosa

 

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector

 

imagem: virgil mlesnita



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Vinícius de Moraes/Chico Buarque 

Valsinha

 

 

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto p'ra seu grande espanto convidou-a p'ra voltar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar

O seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços como há tanto tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça foram para a Praça começaram se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos tantos gritos roucos como não se ouvia  mais

E o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.
 

 

imagem: Kima



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Porquinho-da-Índia

Manuel Bandeira




Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .


— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

 

                                                                                                                                                                         
 imagem:  Kima



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O amor cerra os olhos, não para ver mas para absorver: a obscura transparência, a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria. Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias. O amor conhece-se sobre a terra coroada: animal das águas, animal do fogo, animal do ar: a matéria é só uma, terrestre e divina.

 

 

António Ramos Rosa



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        como a chuva na respiração das aves

 

       venta na angústia, incertezas se espalham

       como a chuva na respiração das aves

 

       poderíamos voar como os pássaros,

       leves elo e ternura. sem saudades.

 

         sonia regina

         3.6.07

 

imagem: yann muzika

 



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sem o entusiasmo solar

 

 

não me esquivo a recompor um texto

sem o entusiasmo solar.

finda o outono e o inverno sela espaços

que o edredon amarelo não aquece

 

e ficaram por decifrar.

 

sonia regina

3.6.07

 

 

imagem: Heiða Helgadóttir

 



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