no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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investigando a estrela sem fim

Caminhei, como tu, escavando

a estrela interminável,
e na minha rede, à noite, acordei nu,
única presa, peixe encerrado no vento." 

 

Neruda, in Las Uvas y el Viento  ( poema completo abaixo)

I

desenha e recorta, amor
nesses textos inacabados
a flor por inventar. penetra-a
de sentido em cada pétala
até que seja som o teu olhar

que desvelado ecoe
[e atordoe]
célere e plácido

no silêncio dos meus seios sem teus lábios



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II

da parede escorre ao chão
e bebe-me, em minha liquidez

nascente secreta
dádiva em ondas

despidas de convenções



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III

à volta do teu corpo
sem qualquer eixo
roda o meu

e é tão íntima a colheita



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IV

toca-me à noite

enlaça-me a asa
leva-me ao alto,
desde o chão

pousa comigo

no vento da memória
[livre]
em cada grão

a areia vive



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v

esse vento sem recato
que me sopra o ventre
com teu cheiro longínquo

cúmplice me desafia

a encontrar-te na música
das sílabas da maresia



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VI

 
fascina-me
gota a gota
os sentidos

até que a concha seja margem
pro teu beijo e pérola se revele
num “arco-íris do desejo”     [1]
em qualquer parte do teu mar

eu, que sem ti sou só retalhos
de identidade, qual entardecer
[ávido]
por  de novo ser manhã.

_______________
[1] Augusto Boal

 

sonia regina
rio, 29.6.06



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Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre sus

patas de oro
y os respondo: El mar lo sabe.
Me decís qué espera la ascidia en su campana transparente? Qué espera?
Yo os digo, espera como vosotros el tiempo.
Me preguntáis a quién alcanza el abrazo del alga Macrocustis?
Indagadlo, indagadlo a cierta hora, en cierto mar que conozco.
Sin duda me preguntaréis por el marfil maldito del

narwhal, para que yo os conteste
de qué modo el unicornio marino agoniza arponeado.

Me preguntáis tal vez por las plumas alcionarias que tiemblan
en los puros orígenes de la marea austral?
Y sobre la construcciòn cristalina del pòlipo habéis barajado,
sin duda,
una pregunta más, desgranándola ahora?
Queréis saber la eléctrica materia de las púas del fondo?
La armada estalactita que camina quebrándose?
El anzuelo del pez pescador, la música extendida
en la profundidad como un hilo en el agua?
Yo os quiero decir que ésto lo sabe el-mar, que la vida en sus
arcas/ es ancha como la arena, innumerable y pura
y entre las uvas sanguinarias el tiempo ha pulido
la dureza de un pétalo, la luz de la medusa
y ha desgranado el ramo de sus hebras corales
desde una cornucopia de nácar infinito.
Yo no soy sino la red vacía que adelanta
ojos humanos, muertos en aquellas tinieblas,
dedos acostumbrados al triángulo, medidas
de un tímido hemisferio de naranja.
Anduve como vosotros escarbando
la estrella interminable,
y en mi red, en la noche, me desperté desnudo,
única presa, pez encerrado en el viento. 



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Me haveis perguntado o que tece a lagosta entre as suas

patas de ouro.../e eu vos respondo: O mar o sabe./

E o que espera a medusa em sua veste transparente? Que espera?

Eu voz digo, espera como vós, o tempo.

Me perguntais a quem alcança o abraço da alga Macrocustis?

Indagai-o, indagai-o a certa hora, em certo mar que eu conheço.

Sem dúvida me perguntareis pelo marfim maldito do

narval, para que eu vos responda

de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado.

Me perguntais talvez pelas plumas alcionárias que tremem

nas puras origens da maré austral?

E sobre a construção cristalina do pólipo tereis embaralhado

sem dúvida/ uma pergunta a mais, debulhando-a agora?/

Quereis saber a elétrica matéria das puás do fundo?

A armada estalactita que caminha se quebrando?

O anzol do peixe pescador, a música estendida

 na profundidade como um fio n'água?

Eu quero dizer-vos que isto sabe o mar, que a vida em suas

arcas/é vasta como a areia, inumerável e pura/

e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu

a dureza duma pétala, a luz da medusa

e debulhou o ramo de suas fibras corais

de uma cornucópia de nácar infinito.

Eu não sou mais que a rede vazia que mostra

olhos humanos, mortos naquelas trevas,

dedos acostumados ao triângulo, medidas

de um tímido hemisfério de laranja.

Caminhei, como vós, escavando

a estrela interminável,

e na minha rede, à noite, acordei nu,

única presa, peixe encerrado no vento.

 - Pablo Neruda, in Las Uvas y el Viento - tradução livre: sonia regina

 



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lalíngua

 

 

 

é preciso tratar a língua, desacostumá-la

da escuta do idioma de palavras gastas

 

é preciso que a voz toque de leve, roce 

o selvagem na plantação, na caçada

 

é preciso acariciar os signos

da navegação pela fábula

 

para que o corpo seja casa, voe na asa

 

e o gosto festeje

[fora do discurso]

o que falta 

 

 

sonia regina

rio, 22.6.06



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tucano beiradeiro

 

 

 

esse tucano que me surpreende tão amarelo

sacode em minha escritura a palavra perdida

 

o céu se estica para além das esquadrias,

vozes têm dono além dos fios e, o mundo,

não cabe nessa janela à beira-campo

 

: atrás da casa serpenteia o rio.

 

 

sonia regina

rio, 22.6.06 



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asteriscos 7

 

 

em algum plano há uma geometria afetiva

que, aquecendo o tempo, evapora distâncias.

 

 

sonia regina

rio, 21.6.06

 



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asteriscos 6


 
efeitos interligam tudo e nada:
passado e futuro presentes

na memória que lateja.

 

 

sonia regina

rio   21.6.06

  



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cogito 6

 

 

um conhecimento prudente

jamais passará de percepção.

 

 

sonia regina

rio, 21.6.06

 

 



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asteriscos 5

 

 


 
mergulhar na memória é banhar-se de alguma meninice
à procura de leveza  passear pelo faz-de-conta

 

nas festas de família reaprender a simetria dos afetos.

 

 

sonia regina

rio, 14.6.06

 



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deixa

 

 

 

a experimentação formal forte

é explícita profissão de poética

 

episódio mitigado biograficamente,

exemplar de pensamento único

 

: não elide o gosto do azul

 

o circo do sol traça o vôo

toca a asa ao deus-dará

 

e a tristeza se fecha

[quieta]

à espera de outra deixa

 

que não virá

 

 

sonia regina

rio, 14.6.06

 

 



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na praia que beija a casa, a hipérbole

 

 

 

contrapesa o acaso, mira a âncora

lançada à boca do rio, nua de barco

sem tato é lastro à deriva, turbilhão

de pássaros na elipse de dia rápido

visível, físico.

sente, o movimento voa no arco

da memória sobre o rumor do pranto

transfigurado, ária sem idioma ou pátria.

a reintegração da hipérbole oscila, já,

da espuma ao canto numa respiração

profunda o encanto do território que flui

na paixão d’água, redonda excentricidade.

transforma a solidão em parábola de terra

revigorada, mina, fonte despida de fogo

fátuo. amor manifesto, esfera de calor

infinito o círculo é fato na eternidade

que arde, na praia que beija a casa

a área onde se inscreve e desenha

certa e exata a circunferência primária.

 

  

sonia regina

rio, 11.6.06

 

 



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no fluir das metonímias
 
 
 
 
no espaço íntimo fora dos limites
 
da paisagem, traços.  imagens
 
nublam sentidos, jogam sem cor 
 
som  tempo   espaço   memória. 
 
singular, a dicção da cidade
 
musica o tempo do silêncio.
 
labirintos atravessam vertigens.
 
o argumento revive nas cenas
 
e voa de debaixo da cama.
 
no leito, o toque.  a pele
 
[cenário que pisou sombras]
 
respira a escrita de um verão.
 
no paradoxo a saída: o poema
 
sem medo de maravilhar-se.
 
fantasmas são fantasmas,
 
não viram carne;
 
uma mulher não é decifrável;
 
a perplexidade e o espanto
 
abandonam o espelho.
 
 
 
 
sonia regina
 
rio, 05.6.06
 


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a praia do leblon

olho o bizarro dos versículos que ruminam

metas e saio contigo em busca do sentido

sacralizado, do natural que aspira subtrair-se

à causalidade da imagem, lapida a linguagem

e desperta o exótico na manhã da cidade,

fronteira do mar.  a praia do leblon?  sim,

recorda-se do olhar verde da água, o gosto

do sal ainda guarda, areia à espera de mirar

aquela ressaca, ou qualquer outra maré.

sabe que não há mais ensaio;  é já o espetáculo

o que a invade de espuma, conchas e algas

 

: a vida que borda os poemas de aves flutua no ar.

 

sonia regina

rio,  03.6.06



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história de estio

quando começa a cair, a noite

revela transparente o coração

da ventania.  secreta e obscura,

a história de um estio não filosofa

como os pássaros que carregam

nas asas o tempo; sobre o assoalho

oceânico voa  a vontade na garupa

da sombra o entardecer de ouro;

na escuridão, por pequenos furos

gemidos cintilam ainda, no céu

da boca, na língua, impregnada

de magia – chamamento florido,

uma oração de alegria –

especiarias escorrem raízes

das mãos, bebem a sede da rosa

dos ventos e mares explodem

na prosa a poesia das árvores,

nos ramos cresce o mundo

que dança na música ao vivo

 a colheita de um outro verão.

 

sonia regina

rio,  02.6.06



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