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território e cenário

atravessa a tarde um ar impregnado de escuridão num movimento imperceptível o tempo pisca certezas. a mesma luz que leva ao êxtase agride o papel com velocidade, para que nele se imprima o instante num colorido profundo sei que o abstrato e o concreto, como o vento e a brisa, são uma só realidade diferem apenas na delicadeza da passagem sei que da existência à vida há a mesma travessia mas, por vezes, o mundo bebe-me o cotidiano sem me dar opções de atualização então cogito acerca da falta que me faz o chão que guarda o som dos teus passos, sem conseguir expressão medito com as asas das borboletas sentadas na palma da rosa até que o café corra em minhas veias e faça-me cintilar de calor e cor é quando sopro com força esse hálito íntimo linguagem e imagem querendo ser território e cenário. bailo contigo onde o figurativo é o visível rio a cascatear azul, onde viajam teus dedos numa barca de possibilidades. sonia regina - rio, 30.5.06
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sem fôlego para uma mudez cantada

é preciso magnetizar o corpo da poesia, farta
de ser canção sem canto que lhe aproveite
musicalmente a voz, cansada de ser só fôlego,
mudez cantada num ou noutro gemido
suspiro, grito
é preciso ouvir o poema que diz assim, num repente,
que não escreverá amém a letras espelhadas, sílabas
entrecortadas por tons ausentes de música e dança
é preciso, urgentemente, atentar à fome de ardor
e ameaça da palavra crua. não importam os ardis,
quer ser rodeada - em seu orgulho -, com coragem
eriçada, até o reconhecimento da alegria [séria]
de viver, nos versos, uma dança nua de amor e raiva.
sonia regina
rio, 30.5.06
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miradas

mirar não é ver, mas esse teu olhar me povoa
de visões a flor da calma. e eu, imprecisa vaga
nos filamentos das estrelas do mar, sonho
peixes sem rede a tocar o impenetrável véu
do sabor se, da lava da solidão, avança
a alma certa
pétala a pétala.
sonia regina
rio, 29.5.06
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no brotar dos dias

há brotos novos na letra.
sem mudez, como as flores
no desabrochar sem pressa
dias que nem sempre partem,
nem sempre estão à deriva:
há os que chegam,
cavalgando carícias
no regaço das carências
movimentos febris, largos
na roda do rumor possível
e, ao cair da tarde, o verso
que espelha - vermelha –
a eternidade em si.
sonia,
29.5.06
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ginga

a minha poesia ginga,
como um felino atento
em cada poro
roda, dá a volta
revira os olhos, gira
com sensualidade e ternura
inova, no silencio da página
escreve-se, a minha poesia,
como uma canção voadora
entregue em cada acorde
em contraponto ao toque
ao som de braços que envolvem,
lábios recolhem beijos-borboleta.
sonia regina
rio, 28.5.06
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no pressentir das pétalas

o frio espanta o desejo, que se mantém recolhido.
mas fico bem aqui, na madrugada, devaneando
entre as pétalas que somente pressinto
ilha florida que não desenho, sem as tuas mãos.
sonia regina
rio, 25.5.06
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para florir um poema
que dizer do verde tom que, entre dois umbigos,
é um rito de pássaros - sem tempo e espaço?
troco o bonito simplesmente apreciado
por esse momento, que esconde o infinito
na carne a duração dos instantes sabe
da mão que constrói a floração do poema
e no encontro das silabas a palavra diz.
sonia regina
rio, 25.5.06
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tatuagem

marca minha pele, o teu olhar. como tatuagem veste-me o corpo de um brilho que só a ti responde, se tocado no sensível
nem há vergonha, nas entranhas. ao toque dos teus dedos vibram como um piano, signo colorido a fazer-se água
e há o preto, e o branco da alma [que te aguarda] para ser aquarela
vermelha, amarela, azul.
sonia regina rio, 24.5.06
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asteriscos 4

plenilúnio...a lua anuncia o amanhecer o céu deitou com a terra, nasceu o dia.
sonia regina
rio, 24.5.06
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| PÍRAMO E TISBE
Esta história só é contada por Ovídio. É bastante característica do que há de melhor em seu estilo: boa narração, vários monólogos retóricos e, em meio, um pequeno ensaio sobre o amor.

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Já houve um tempo em que o vermelho profundo das bagas da amoreira era branco como a neve. A mudança de cor resultou de um fato muito estranho e triste: a morte de dois jovens apaixonados.
Píramo e Tisbe, ele o mais belo dos jovens e ela a mais bela virgem de todo o Oriente, viviam na Babilônia, a cidade da rainha Semíramis, em casas tão próximas que apenas uma parede comum as separava. Crescendo assim, lado a lado, aprenderam a amar-se mutuamente.
Queriam muito casar-se, mas não havia como vencer a proibição dos pais. O amor, porém, não pode ser proibido. Quanto mais se cobre a chama, mais forte ficam as labaredas. Além disso, o amor sempre acaba encontrando suas soluções. Não era possível manter separados esses dois jovens cujos corações explodiam de amor.
Na parede que separava as duas casas havia uma pequena fenda da qual até então ninguém se dera conta. A quem ama, porém, não há nada que passe despercebido. Nossos dois jovens descobriram-na, e através dela começaram, então, a sussurrar doces palavras de amor, Tisbe de um lado e Píramo de outro. A odiosa parede que os separava transformara-se em sua única forma de contato. "Não fosse tua existência, poderíamos estar juntos e beijar-nos", costumavam dizer, referindo-se a parede. "Mas, pelo menos, podemos falar através de ti. Permites que doces palavras de amor cheguem aos nossos ouvidos apaixonados. Não somos ingratos." Assim falavam e, quando a noite chegava e tinham de separar-se, era na parede que davam os beijos que não tinham como chegar aos lábios do outro lado.
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Todas as manhãs, quando o alvorecer já expulsara do céu as estrelas e os raios do Sol já haviam secado a geada que endurecia a relva, iam furtivamente até a fenda e ali ficavam, às vezes trocando as mais doces juras de amor, outras vezes lamentando o triste destino a que pareciam condenados. Suas palavras, porém, eram sempre trocadas em forma de sussurros quase inaudíveis. Por fim chegou o dia em que não tinham mais condições de continuar suportando aquela situação. Decidiram que, naquela mesma noite, iriam tentar fugir e atravessar a cidade em direção ao campo, onde finalmente poderiam ficar juntos em liberdade. Combinaram encontrar-se em um lugar bastante conhecido – o Túmulo do Nilo -, sob uma árvore que ali havia, uma grande amoreira cheia de bagas brancas como a neve, e perto da qual murmuravam as águas frescas de uma fonte. O plano lhes pareceu perfeito, e para eles aquele foi o mais longo dia de suas vidas.
Por fim, o Sol mergulhou no oceano e a noite chegou. Na escuridão, Tisbe saiu furtivamente de casa e, fazendo o possível para não ser vista, dirigiu-se para o túmulo onde haviam combinado encontrar-se. Píramo ainda não tinha chegado, a ela ficou a esperá-lo com a coragem fortalecida pelo amor. De repente, porém, a luz da lua permitiu-lhe divisar o vulto de uma leoa que se aproximava. A fera selvagem tinha acabado de matar uma presa; tinha as mandíbulas ensangüentadas, e vinha saciar a sede na fonte. Estava ainda a uma distância que permitia a fuga de Tisbe; mas, ao correr em busca de um abrigo seguro, a jovem deixou cair a capa que trazia aos ombros. Ao voltar para o seu covil, a leoa viu a capa e, antes de desaparecer na floresta, abocanhou-a e fez dela apenas um monte de trapos. Ao chegar, poucos minutos depois, foi com essa cena que Píramo se deparou. Diante dele estavam os farrapos ensangüentados da capa e, visíveis na obscuridade, as pegadas da leoa. A conclusão era inevitável: Tisbe estava morta. Ele permitira que seu amor, uma jovem tão delicada, viesse sozinha para um lugar tão cheio de perigos, e ali não estivera para protegê-la. "fui eu que te matei", exclamou. Do solo espezinhado, levantou o que restava da capa e, beijando-a muitas vezes, levou-a consigo para perto da amoreira. "Agora", disse ele, "beberás também do meu sangue." Desembainhou a espada e cravou-a no coração. O sangue, lançado em borbotões, atingiu em cheio as bagas da amoreira, que então se tingiram de um vermelho-escuro.
Apesar de ainda apavorada com a leoa, o grande medo de Tisbe era não conseguir encontrar seu amado. Assim, resolveu arriscar-se a voltar para junto da árvore onde haviam marcado o encontro, a amoreira dos reluzentes frutos brancos, mas não conseguia encontrá-la. A árvore era a mesma, mas seus ramos não deixavam entrever um só lampejo de brilho branco. Ao olhar bem, percebeu que alguma coisa se mexia no chão. Recuou, trêmula, mas no instante seguinte, firmando os olhos por entre as sombras, viu claramente o que se passava ali: Píramo, banhado em sangue e quase morto. Voou para ele e o tomou nos braços, beijando-lhe os lábios frios e implorando-lhe que a olhasse e falasse. "Sou eu, a tua Tisbe, a tua amada!", disse-lhe a chorar. Ao ouvir o nome que tanto amava, Píramo entreabriu os olhos pesados e olhou para Tisbe pela última vez. Em seguida, a morte se encarregou de fechá-los para sempre.
Ela então viu a espada que lhe caíra das mãos, e bem perto dela a sua capa manchada de sangue e esfarrapada. Num instante, compreendeu tudo. "Tua própria mão te matou", disse, "e teu amor por mim. Também posso ser corajosa, também eu posso amar. Só a morte teria tido o poder de nos separar, mas agora deixará de ter esse poder." Cravou no coração a espada ainda úmida do sangue de seu amado.
Por fim, os deuses se apiedaram, e o mesmo fizeram os pais dos dois jovens. O fruto vermelho-escuro da amoreira ficou sendo a eterna recordação desses amantes fiéis e verdadeiros.
Suas cinzas estão contidas em uma única urna, pois nem a morte foi capaz de separá-los. |
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Hora
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
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asteriscos 3
na ciranda de palavras gira o segredo,
o mistério estrebucha e rodopia:
dissolvem-se na noite, em câmera lenta.
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no avesso do caos
hoje uma borboleta bateu as asas, por aqui :
caiu a parede que separava píramo e tisbe.
sonia regina
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asteriscos 2

busco compreender a ordem que há na desordem e as leis que regem o acaso. meu olhar observa
a irregularidade em seu movimento regular,
atento ao andamento do hoje, aqui e agora
entre o passado e o futuro, um hiato - a minha morte
sem lágrimas ou risos transito entre as dualidades e por pensamentos, palavras e obras eu peco :
cometo excessos e economias.
sonia regina
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asteriscos 1

enquanto te aguardo o toque, ó cirandeiro, nada mais sou além de um fractal do caos organizado. um turbilhão, redemoinho
tornado.
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rio, 22.5.06
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transfiguração

sem constrangimento, entre nós um traço (apenas) é desenho
se a lua movimenta as águas em um antigamente próximo que já não ousa quietude
imodesto na inquietação [que surge] alinhava o medo e, o fantasma, transfigura-se
sonia regina
rio, 21.5.06
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configurações
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deixa que o sensível fale do fruto
e dance o despertar
nas cinzas e na semente a promessa não dorme [arde] o futuro presente na intenção.
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rio, 21.5.06 |
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cogito 5

a alegria é um diário em branco
(contraste dialético)
de uma contingência da paixão
emerge das condições intersubjetivas.
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rio, 21.5.06
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cogito 4

inabilidades podem iniciar efeito espiralado:
gerar valentias de defesa e conquista; desenvolver competências para ser feliz.
sonia regina
rio, 21.5.06
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cogito 3

o privado se recobre na sublimação.
a inocência se anula em momentos líricos:
vela fronteiras, inaugura limites públicos
entre a memória e o romance.
sonia regina
rio, 20.5.06
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pão e circo
sonia regina e jorge vicente
as partes foram colocadas em separado pela limitação de tamanho imposta pelo servidor
I
há calçadas quebradas no chão do meu país
por onde se vê o que ‘em se plantando tudo dá’
: uma terra de ‘palmeiras onde canta o sabiá’
nos campos, o trigo e o milho original
nas cidades, luz e cena, pão e circo,
temporal
este é um povo afetivo, de trabalho e riso,
amor e risco, pobreza, fome e coisa e tal
o que não aplaca a sede que paira, no ar
somos seres d’água, sim, mas lavráveis
pelos quais não basta navegar.
"Nesta terra, em se plantando, tudo dá." Foi o que escreveu Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal anunciando a descoberta do Brasil
in Canção do Exílio - Gonçalves Dias
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o poema-resposta de jorge vicente, que originou o poema em conjunto
II
somos seres de música ténue
aérea, solar, majestosa
somos o som silente do silêncio
dos plátanos. a placidez da água
roubando a acácia dos teus olhos.
dorme-me na quentura do teu abraço
humilde. dá-me o pão que descansa
nos olhares dos artistas.e dança
o circo. e rouba-me a violência.
dá-me vida. pratica o amor. transforma
a dança no rito das folhas.
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III
gira o mundo, passa o tempo,
ultrapassa o espaço, se mergulha
a nossa alma na música dos teus versos
fica o rio ensolarado
no calor do abraço
humilde, lasso
fica o momento selado
sopra fronteiras, voa o olhar
no estado da arte penetra a manhã
despertam os sonhos
que se apoderam das mãos
chamam o sal da terra,
num protocolo de néctares
sobre o corpo do poema faz-se o pão
de milho, poesia que tremula
e se entrega ao espanto da língua
em contraponto ao arrepio do beijo
o circo tem sabor de saudade
IV
é um circo das águas. o circo das mil
e uma ilhas que desaguam no néctar dos
teus olhos. são pedro jorra o amor das
pedras e transcende-te. inventas um
trapézio das pedras, onde a terra
lança os corpos dos dançarinos feitos
filhos da terra. o sabor telúrico da
arte.
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V
mina a água da terra, dançarina
por entre as pedras, escorre
vaga presença líquida, ensina-me
a domar os cabelos molhados, nus
de qualquer sorriso
com ela aprendi o resgatável
e o impreciso vôo no trapézio,
a descida ao fundo do escrito
que saboreia a sílaba que deságua
no leito, ao colher a gargalhada
[entre pálpebras fechadas]
do `obscuro objeto do desejo'.
VI
esse desejo como um anjo exterminador que
buñuel desenhou nas suas fábulas. os homens
mentem na sua própria dança resgatada. o ventre
da expressão corporal, uma folha caída no
âmago dos olhos. apanho-a e entrego-ta. e
invento o meu circo na apanha da azeitona
e do mel. um riso telúrico invade todo o
continente e as ilhas dos teus olhos.
filme de Luis Bunuel, Esse Obscuro Objeto do Desejo (Cet Obscur Objet du Désir)
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VII
não sei do que mentem os homens, ou do que vejo
meus olhos têm medo - se aceito o que me entregas,
essa folha do ventre na expressão do corpo -
de serem continente desse riso que não ouço
[e me invade}
se tens no âmago dos teus olhos um circo d’águas
se me desfaço em rosas e das pétalas fazes ilhas
a jorrar o néctar com tua dança resgatada
pois se São Pedro é posseiro, ele pactua com o Anjo
na apanha da azeitona e do mel e, com Buñuel, nas fábulas
que não exterminam a expressão e o desenho do desejo
VIII
apenas extermino o anjo caído a queda
feita das urzes dos teus olhos o sorriso
desgarrado sem a imaginação das flores.
apenas o circo invade o palco das águas
o poeta cai e sempre se levanta, mesmo que
o véu seja apenas dele e a praia surja no
interior do olhar do corcovado. do alto
do cristo redentor, um palco se avizinha:
o teu palco que abraça o anjo caído, o
deus das águias e dos peixes. a rosa dos
ventos que nos trouxeram os navegadores
o sabor da história a hóstia e o carnaval.
segue comigo, minha pomba, e descobriremos
se o pranto é um costume dos homens ou se
a tradição apenas ri quando as folhas saltam.
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DO ESPELHO (fragmentos)
Flusser, V., Ficções Filosóficas, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. Páginas 67-71.
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Todo aquele que reflete está interessado no espelho. O espelho é por definição, um instrumento que reflete, que especula (de speculum = espelho). (...) Wittgenstein concebe a língua e a realidade como dois espelhos pendurados em paredes opostas num quarto vazio.
(...) Não estamos mais tão interessados na face reflexiva do espelho. O nosso interesse está na outra face, naquela que está coberta pelo nitrato de prata. Estamos invertendo espelhos. Este é um dos característicos da atualidade: espelhos invertidos. E espelhos invertidos serão o tema desse artigo.
A reflexão do espelho é conseqüência do nitrato de prata. Não existisse, e o espelho seria transparente. Seria janela. E a janela é, como sabemos, outro problema. Não menos apaixonante.
Fala-se muito em abrir janelas e pouco em fechá–las. Mau sinal, creio porque a janela é algo que pode ser fechado: não é buraco. Mas isto é, como disse, outro problema. O espelho não é janela por causa do nitrato de prata. Reflete. (...) |
A poesia é o nitrato de prata do pensamento. O espelho está virado. Há outros métodos de virar o espelho, embora pouco aplicados no Ocidente. Um deles é a meditação disciplinada. Num tipo de meditação (no tipo hindu), os pensamentos são destruídos sistematicamente pela vontade e revelam o seu nada fundante. Em outro tipo de meditação (no tipo budista), os pensamentos são destruídos pela supressão da vontade e revelam igualmente o seu nada fundante. E há outras possibilidades. Por todas elas podemos virar o espelho que somos. Pois bem: está virado o espelho. Descobrimos (ou redescobrimos) o nada que nos fundamenta enquanto seres que refletem. Descobrimos aquilo que a Idade Moderna encobriu com conversa fiada. E daí? Esta pergunta marca a atualidade. A resposta depende do tom pelo qual pronunciamos a pergunta. Se perguntamos: "E daí?" como quem dá os ombros, a resposta será a da indiferença. Grande parte da humanidade está dando esta resposta. Se perguntamos: "E daí?" como quem procura caminho, a resposta será uma série de novas perguntas. Os orientais, que contemplam a outra face do espelho há milhares de anos, parecem recomendar o abandono da oposição que somos. Parecem dizer que, dado o nitrato de prata, é melhor deixar de ser espelho. Abandono da oposição: união mística, portanto. Mas esta recomendação não é viável para nós, herdeiros do humanismo. Devemos procurar outros caminhos a partir do "e daí?" que é o espelho virado. Existem. A nova arte o prova. Correm todos, creio, na região que se estende a partir da outra face do espelho. Isto nos distingue dos nossos antepassados. Estamos interessados na região atrás do espelho. Conosco começa uma época nova. A dos espelhos virados. |
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sursum corda

Acorda Lisboa. Sem sonhos. Chove sem nós. Somos duas que se espreitam, experimentam-se e te procuram : em cada. Rio dessa ousadia que me escorre pelas costas, contornando-me as curvas – da cabeça aos pés. E se meu sorriso lhe agrada, esplende! Zomba do meu olhar inocente e, irreverente, chama de Amazonas o Tejo - esse que bebo sofregamente na esplanada do elevador de Santa Justa. Regala-se porque minha boca ainda traz teu gosto e mostra-se a mim : a cores. Amarelo, verde e alguns azuis, no cinza do castelo de São Jorge. Subir a Calçada de Santo André me anuncia e inicia: sacramenta nossos ritos. No batismo líquido há luz. Inaugura-se o levante dos meios corações que carregamos e - arco-íris - brilham nesse etéreo, tão real. Um dia eu volto e também aqui seremos.
sonia regina
madeira ->lisboa, outubro de 2003 |
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Coisa amar
Manuel Alegre
Contar-te longamente as perigosas coisas do mar. Contar-te o amor ardente e as ilhas que só há no verbo amar. Contar-te longamente longamente. Amor ardente. Amor ardente. E mar. Contar-te longamente as misteriosas maravilhas do verbo navegar. E mar. Amar: as coisas perigosas. Contar-te longamente que já foi num tempo doce coisa amar. E mar. Contar-te longamente como dói desembarcar nas ilhas misteriosas. Contar-te o mar ardente e o verbo amar. E longamente as coisas perigosas.
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caminho d’água
desafio a criatividade e deixo que a palavra fale, como último ato de saúde. tua voz me puxa do ar, nesses momentos em que a única vontade é pedir licença e descer do mundo, só, exilada deste país em que todas as ruas vão dar no mar, emigrante de ritos não cumpridos. à procura de solo úmido, a lava sangrou, ainda desordenada, pelos poros da terra. rompeu a mata, cobriu a estrada de névoa. o que mal me impede a visão, se tuas mãos tocam meus pés e me chamam pra paisagem. adiante os campos dos goytacazes, no litoral e eu, daqui, me preparo para a volta. se levo saudades, não temo a chegada navego no canal de lágrimas sem barco, a escuna ao largo eu, minha canoa e a vontade de remar. sigo o caminho d’água que não sei onde vai dar se deságua em outro rio, se vai ao encontro do mar.
sonia regina barra do corumbê-paraty, 24.4.06 campos dos goyacazes, 03.05.06
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Mensagem
Fernando Pessoa
NOTA PRELIMINAR
O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo. |
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pão e circo
há calçadas quebradas no chão do meu país
por onde se vê o que ‘em se plantando tudo dá’
: uma terra de ‘palmeiras onde canta o sabiá’
nos campos, o trigo e o milho original
nas cidades, luz e cena, pão e circo,
temporal
este é um povo afetivo, de trabalho e riso,
amor e risco, pobreza, fome e coisa e tal
o que não aplaca a sede que paira, no ar
somos seres d’água, sim, mas lavráveis
pelos quais não basta
navegar.
sonia regina
rio, 03.05.06
"Nesta terra, em se plantando, tudo dá." Foi o que escreveu Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal anunciando a descoberta do Brasil
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convite, preciso não há serenidade ou sensatez na minha paciência. não leio o que me reparte em lágrimas não saboreio o vácuo na serra nem embalo a tarde que desmorona : espero pacientemente que se vá a noite e deixo-a cair no rio, tornada manhã para que com ele corte o vale e, no leito, lave os instantes de pura aceitação, seixos rolados ao encontro do mar salto do silêncio que não se comunica e ergue pinguelas, no ar. mergulho no tempo, palavra líquida, fundo momentos. ruídos vivos que serão som, ao convite [preciso] que a intenção de travessia não pode imaginar.
sonia regina rio, 1º.05.06
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O mundo é grande
Carlos Drummond de Andrade
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. |
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O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar. |
Carlos Drummond de Andrade
Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
(com o pensamento em Ana Cristina Cesar)
Um beijo
Ana Cristina Cesar
que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer.
Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor
( in A teus pés, Global Brasiliense, 1993 - S.Paulo, Brasil)
"Uma poeta de grande originalidade, para alguns. Uma grande promessa que não conseguiu se concretizar*, para outros. Uma espécie de aristocrata convivendo com poetas ditos marginas. "Uma poeta-que-pensa. Uma poeta-crítica. Não apenas mais uma fazedora de versos." Musa e mito da geração dos "filhos da PUC", Ana Cristina Cesar tinha um certo pudor em um tempo em que todos escolhiam estar à vontade." http://www.editoras.com/relume/016004.htm
* a escritora se suicidou em 1983, aos 32 anos.
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